Monday, December 22, 2008

Bocage - Relatório e Contas (1889)

"Profundamente inquieto, Bocage percorre a sala de um lado ao outro infinitas vezes, sob o olhar atento do seu contabilista. De súbito, detém-se:
- E o Amor, Artur? - pergunta. - Onde está afinal o Amor?
Retirando uma folha da resma que tinha à secretária, o contabilista responde-lhe de pronto:

- Está aqui, Sr. Bocage: Existências, bens pereciveis.
O poeta volta a sentar-se.
- Claro, Artur. Bens perecíveis..."

Thursday, December 18, 2008

existenciais

What kind of man will Bubble-Boy grow up to be?

Monday, December 15, 2008

ide...

...nas Pás do Senhor.

o Pai Natal não existe...

... é apenas um part-time do Capitão Iglo durante as férias.

Wednesday, December 10, 2008

Manifesto do Sono (com e sem h)

"- Integrar na vida activa uma franja marginalizada da população nacional.
- Combater o défice produtivo mediante novas políticas de trabalho.
- Optimizar o horário nocturno, a exemplo do que acontece no horário diurno.
- Valorizar a totalidade do capital humano nacional.
- Minimizar, se não eliminar, assimetrias sociais, oferecendo oportunidades àqueles que anteriormente não as tinham.
- Fazer face à crise global, com acções construtivas que voltam a colocar o país na vanguarda das políticas de, e para, o Desenvolvimento.
(...)"

Os tópicos, lidos um por um pelo Chefe de Estado em discurso perante uma Assembleia semi-despida de representantes nacionais, iam recolhendo ténues ovações de uma bancada, insípidas manifestações de desagrado por parte de outra, e um muito vincado silêncio entediado por parte das restantes. O projecto-lei seria, uma vez ultrapassada uma fase de pergunta-resposta ("Olhe que não, Doutor..."; "Vamos falar verdade, senhor primeiro-ministro...") pouco menos que automatizada, votado e aprovado.

Significava isto que todos os membros da população nacional em idade adulta seriam integrados, mediante mecanismos pré-estabelecidos em acórdãos, leis, alíneas, de forma progressiva na vida activa. A medida, com efeitos imediatos, partia afinal de uma simples premissa, facilmente apresentada em forma de pergunta:

"Que motivos reais e racionais existem para que um país com uma elevada taxa de desemprego pare de forma tão evidente durante as horas da noite?"

De maneira a assegurar o perfeito funcionamento dos fluxos urbanos e maximizar o tempo disponivel sem sacrificio do mesmo em actividades acessórias como deslocações (casa -> trabalho \ trabalho -> casa) foram criadas habitações próprias para os trabalhadores deste horário nocturno. O fim das deslocações nocturnas tinha ainda um outro ponto a favor: perante o volume irrelevante de trabalho, os transportes públicos nocturnos deixavam de ter expressão ou significado, pelo que os seus activos humanos seriam reintegrados à luz das novas filosofias de trabalho.

Os alojamentos viriam a surgir em poucas semanas, mudando completamente a face das cidades: eram, na sua esmagadora maioria, compostos por enormes torres pretas, de traço arquitectónico simples. Todos os prédios contavam numerosos quartos, andares, algumas portas e nenhuma janela. Tudo para que a luz do dia não perturbasse o descanso daqueles que tão voluntariosamente aplicavam as suas forças durante a noite em tão elevada causa nacional.
Foi num dia solene, marcado por um evento simbólico numa qualquer vila remota, que todos os reintegrados tomaram posse das suas novas habitações. Para elas foram transferidos novos e velhos, cegos, brancos, pretos, apáticos, irrequietos e incómodos. Todos aqueles que no momento da publicação em Diário da Republica se encontravam sem ocupação fixa, sem rendimento declarado.

O país dividiu-se então em dois: dia e noite, cada facção separada por uma enorme barreira, uns pelo lado de dentro, outros pelo lado de fora. Lentamente, após alguma contestação, os do dia acabaram por se acomodar ao luxo da Luz, ao conforto da sensação de que, ao fim de cada dia de trabalho, a missão não só estava cumprida, mas era, acima de tudo, prosseguida, num movimento imparável que, indubitavelmente se revelaria benéfico para todos. E esse sentimento era exponencialmente rejuvenescido de cada vez que olhavam ao longe as enormes torres negras.

Mas, e é apenas para dizer isto que este texto existe:
À terceira semana, longe dos olhares exteriores, entre os poços dos elevadores e sobre os degraus das intermináveis escadarias, já todos os habitantes das torres tinham aprendido a voar.

Thursday, December 4, 2008

torralta

Não sou esquizofrénico, tenho é um complexo sistema de timesharing em funcionamento na minha cabeça.

Tuesday, December 2, 2008

instantâneo

Saiu de casa munido de uma mangueira e de uma enorme colher de sobremesa.
Se o Mundo estava feito em pó, ele ia arranjar maneira de o beber.

Thursday, November 27, 2008

incrível

Há horas extraordinárias que se revelam extremamente banais.

Wednesday, November 26, 2008

ego

Tuesday, November 25, 2008

primeira lição
















Um playmobil nunca tem dôr de cotovelo.

Tuesday, November 18, 2008

janelas são bocas

O menino caminhava pelas ruas e ouvia vozes. Caminhava pela mão da mãe, e ouvia vozes que ela não ouvia. Vezes sem conta o menino lhe puxava o braço e chamava por ela, mas ela nunca o ouvia, por ir tão alto.
Eram as vozes das janelas dos prédios que o menino ouvia, a contarem as suas histórias umas às outras, e a quem mais as quisesse ouvir. Quanto mais aberta estava, mais alto a janela falava, porque janelas são bocas.
Ouvia todas as histórias e guardava-as com todo o cuidado. Guardava-as nos bolsos, entre todas as coisas que os meninos são capazes de guardar nos bolsos, ou simplesmente levava-as para casa, embrulhadas nas mãos cobertas de terra ("limpa as mãos, Francisco... não te disse para não ires jogar para o meio da terra?").
Quando regressava a casa, ia direito para o quarto ("vai fazer os deveres, Francisco."), fechava a porta e chegava-se à janela. À sua própria janela, a que falava para ele, a janela do quarto do menino. Ajoelhava-se junto à moldura de Mundo e desembrulhava a história que tinha conseguido levar intacta até casa. Depois, as histórias começavam a contar-se à janela, que as ouvia com um sorriso.
A janela do quarto do menino era uma janela diferente: tinha sido montada ao contrário, muitos anos antes do Francisco entrar naquele quarto pela primeira vez. Aterrorizada, tinha chamado o carpinteiro até ficar sem voz, tentado explicar-lhe o equivoco. Mas o carpinteiro não ouvia vozes, muito menos janelas.
Todos os dias o menino levava uma história nova à sua janela que vivia de costas para o Mundo: as janelas de um último andar que não podiam ser mais diferentes (uma tinha vertigens e vivia sempre em pânico, a outra sonhava um dia poder voar); a janela de um rés-do-chão que por ter o trinco estragado havia anos não se podia calar e que por isso tinha começado a contar alto (já tinha acabado os números, as letras e contava agora em nomes de pessoas de um país enorme, muito para lá de todos os prédios da rua).
No final, a janela aplaudia, o menino agradecia, e a história contada pedia licença para se retirar. A maior parte das histórias voltaria um dia mais tarde, para fazer companhia à janela cega.
Mas um dia, tinha o menino saído, a janela começou a chorar a meio da conversa com a história da clarabóia que era solista no coro do telhado, exactamente no mesmo momento em que a mão da mãe do Francisco começou a jorrar sangue pelo passeio, criando pequenas poças vermelhas.
Uma pedra, nascida a voar não se sabia de onde, tinha sido atirada à janela. A janela ficou ilesa, mas o menino, que se encontrava a ruas e ruas de distância, espalhou-se pelo chão em mil pedaços de cristal.

Durante os anos seguintes, viria gente de longe para admirar o fenómeno do quarto virado para o Sol que estava sempre escuro, apesar da enorme janela completamente aberta.
Ou então não viria ninguém, e horas depois de serem varridos os últimos estilhaços de criança do passeio, a janela deixar-se-ia cair de costas, vendo finalmente passar por breves segundos o Mundo que um carpinteiro surdo lhe tinha negado.

Monday, November 17, 2008

fatalidade urbana

Impecavelmente vestido, dirigia-se para uma festa quando a tragédia aconteceu: atropelado por um carro em marcha-atrás, o vampiro não mais se levantaria. O condutor, visivelmente consternado, alegaria posteriormente à policia ter olhado pelo espelho no momento da manobra e não ter visto ninguém.

Thursday, November 13, 2008

ainda sobre esperas














The Long Awaited
Instalação, 2008
Patricia Puccinini

Friday, October 31, 2008

uma espera

Desde adolescente que tinha deixado o hábito de usar relógio. A partir do momento em que saia da casa que partilhava sozinho que o tempo de todos os seus gestos era marcado pelos outros: “pago o café quando o senhor que pediu para lhe desbloquearem a máquina receber o troco do maço de tabaco”, “atravesso a rua ao primeiro sinal verde depois da rapariga de verde entrar no autocarro que parou agora”.
Por vezes uma indecisão da parte da outra pessoa obrigava-o a demorar-se um pouco mais, mas nunca se impacientava. Uma espera era uma oportunidade para observar à sua volta, para descobrir algo novo no prédio da frente, um outro risco no carro vermelho estacionado ali perto.
Naquela tarde, tomava o café de sempre num passeio anónimo, escolhendo nos passos de alguém o momento de sair dali. Escolheu a rapariga que estava do outro lado da rua, tomando um café exactamente igual ao dele enquanto o olhava bem nos olhos. Quando deu por ele, o Sol começava já a descer no horizonte atrás dos prédios e os ponteiros dos relógios já tinham entontecido de voltas. Mas a decisão estava tomada. Ela olhava-o do outro passeio, parecendo tão vazia de impaciência quanto ele. Sorriam um para o outro, até ao momento em que o rapaz da mochila azul passou por trás dela e, sem querer, sem desconfiar por um segundo que fosse, fez com que duas vidas nascessem de novo.

Saturday, October 25, 2008

anónimo

Os tipos de letra foram inventados por um raptor que queria pedir um resgate por carta anónima mas não tinha revistas à mão.

Monday, October 20, 2008

sinal sonoro - ao terceiro ponto final serão reticências

Quando viu o fogo irromper pela porta, não hesitou: correu à parede, pegou no extintor, e com uma violência terapêutica esmagou o crânio do incêndio até o ver apagado.

Friday, October 17, 2008

terapia quitoso

A última coisa que um piolho faz na vida é catarse.

Tuesday, October 14, 2008

Jim Morrison \The Doors - Feast of Friends

o preço

Quando virei costas e voltei a olhar para a tela que levava na mão, não sei em verdade se o meu esgar foi de tristeza ou de surpresa: o meu Taj-Mahal em desenhos não passava agora de um rabisco ridiculo que os dias e a raiva rapidamente tratariam de destruir.

Thursday, October 2, 2008

o vazio

Se um dia acabarmos com os carros, o que é que vamos fazer às pontes gigantescas, às auto-estradas?

algo para mudar o Mundo (lembre-se disto no Metro)

Devia haver um Clube de Sósias do Vicente Moura.

Monday, September 29, 2008

cinema

Ontem fui ao cinema e deparei-me com um cenário caótico:
Os pombos descobriram as pipocas.
Qual é a Quarta Dimensão de um desenho?
O Tempo passa, para uma coisa que nunca muda?

Wednesday, September 17, 2008

intempérie é sempre uma palavra escondida

A Luz morreu num fim-de-tarde de Verão.
O Mundo não caiu numa noite perpétua, as árvores não ficaram esculturas de gelo. Tudo ficou exactamente igual.
Levaram-na a enterrar numa cerimónia de silêncio. Para fazer soar as três salvas usaram-se espingardas mudas, e só estiveram presentes a família e alguns amigos chegados. O caixão era forrado a espelhos, e mesmo depois de tapado com terra, ninguém podia olhar para o chão mais de dez segundos sem que lhe doessem os olhos.
Muito mais tarde, era já Inverno, um par de mãos escavou um buraco na areia de uma praia.
O Mar rugia, o vento atravessava a carne e cortava-a de frio.
A 50 cms de profundidade, as mãos pararam com o toque de um calor perdido.
Era afinal ali, debaixo dos pés de todos, que os dias de Sol se escondiam das nuvens.

Thursday, September 11, 2008

eu não assinalo efemérides

Não.

Nunca saberia guardar efemérides. Elas falam demasiado de si, são demasiado imediatas.

Isto é outra coisa.

E agora calo-me devagar.

Tuesday, September 9, 2008

como é que eu nunca tinha posto isto aqui?

Bruno Aleixo

8

Ficaste presa no monstro, o monstro de milhões de mãos. Ele teve tempo suficiente, anos para te desfazer, em pedaços tão pequenos até deixares de existir.
Cada mão guardou o seu pedaço de ti, mas nenhuma delas sabe como o usar, nem para que serve.
Tal como há escalas de terramotos e de tempestades, também há uma para desaparecimentos. Os que derrubam paredes, os que fazem oscilar suavemente o candeeiro da sala, os que são praticamente imperceptíveis; os que se curam e os doentes terminais da invisibilidade. As pessoas podem desaparecer, num enorme e magnifico número de magia cruel.
É uma linha de terra que pode ser atravessada sem que os olhos toquem nos sonhos. No fim, mesmo no fim, derrete-se em bifurcações, tantas que nunca ninguém as poderá vasculhar todas.
Todas as crenças têm os seus gestos. É assim que os fiéis de algo se identificam entre si.
Que ainda acredites.
Põe a tua música.
A caneta acaba assim de dançar a sua última dança com os olhos postos em ti.
Foi esta que ficou por dançar.



"...inventa un buen final, un final que no nos deje asi..."
(inscrição na parede de um bar em Madrid)

Monday, September 8, 2008

apontamento no comboio

Continuo sem saber olhar pela janela como um adulto: inclino-me para a frente e encosto a cara ao vidro, entre as mãos. Confesso que deve ser tão deselegante como beber um litro de água de um só fôlego.

Tuesday, September 2, 2008

fazer música com...

...um computador dos anos 60.
IBM 1401 é o nome de um computador criado nos anos 60, que tinha uma falha de construção: uma fuga de radiação electromagnética fazia com que emitisse uma frequência que podia ser captada por rádios AM. Eventualmente, alguém descobriu que a partir deste defeito era possivel fazer o computador "cantar".
Anos depois, Johann Johannsson escolheu a voz do IBM 1401 como base para uma música.
O que é que isto tem a ver com pedreiras é algo que ainda me escapa.
Mas foi assim que um computador gigante se transformou em sapato.




...e com interruptores.

Já estes senhores... são japoneses. E pronto.

Tuesday, August 26, 2008

meio decibel quadrado

Chovia-lhe ao ouvido.
Perguntou-lhe se também ouvia a chuva. Claro que não, qual chuva?
Chovia no espaço entre as vozes, um espaço que não tinha sitio, nem Tempo. Um espaço de existência sonora. Meio decibel quadrado.
Aí as palavras encharcavam-se de ruído e estática. Um enorme cheiro a terra húmida.
São sempre as afinidades da água que recebem e transformam para voltar a dar.
Fechou-se outra vez.
Foi assim que morreu afogado: em pé, no meio da rua, esmagado por uma chuva que só ouvia.

Friday, August 22, 2008

dress code no futebol

O lance de mão na bola caprichou no fato para o jantar de gala, mas mesmo assim foi casual.

Tuesday, August 19, 2008

na loja

Ainda há esperança, mas só para exposição.

como consolar um recém-falecido













"Pronto, pronto... já passou..."

Monday, August 11, 2008

Um Pai Natal senil dá as boas-tardes a todos os presentes.

Monday, August 4, 2008

Friday, August 1, 2008

dança



Viu-a aproximar-se lentamente, vinda do outro lado da pista. Trazia um meio-sorriso armado na cara, e um brilho autocolante nos olhos.
Pousou a mão ao de leve no braço dele e sorriu, exibindo como num convite os seus dentes com sabor a sair daqui.
Ele agradeceu devagar e ficou a vê-la afastar-se por entre uma floresta de braços.
Os filematófobos também sabem dançar.

Thursday, July 31, 2008

provérbios

mandou um tiro no escuro que, incrivelmente, lhe acertou no pé.

Monday, July 28, 2008

palavras de outro

"
Armadura - género de roupa usada por um homem cujo alfaite é ferreiro
Chato - uma pessoa que fala, quando queríamos que ouvisse
Duas vezes - uma vez a mais
Erudição - o pó que se sacode de um livro para dentro de um crânio vazio
Fidelidade - Uma virtude peculiar daqueles que estão prestes a ser traídos
Indicador - o dedo que vulgarmente é usado para acusar dois malfeitores
Litígio - máquina em que entramos como um porco e saímos como uma salsicha
Oração - Solicitação para que as leis do Universo sejam suprimidas em beneficio de apenas um peticionário, claramente não merecedor
Pintura - A arte de proteger superficies planas do clima e expô-las à critica
"

Retirado de "The Demon's Dctionary" de Ambrose Pierce (1842 - 1914), citado na "Miscelânea Original de Schott", de Ben Schott.

Friday, July 25, 2008

Tabacaria Fumo


O autocolante vermelho confirma:
A Tabacaria Fumo é uma zona de não-fumadores.

Catadupa II

For rational consumers:
No cheaper style
Than Freestyle

Homenagem
Ao Homem quase sem barba,
ele é o elo quase perdido para o que há-de vir.

Tragédia Hollywoodesca
Ao chegar a casa, o meu pé morreu-me nas mãos.

Thursday, July 17, 2008

magia materialista na linha suburbana

A Pessoa X e a Pessoa Y partilham uma carruagem de comboio. Por mero acaso.
A Pessoa X sai na 3ª estação.
A Pessoa Y sai mais adiante, na 6ª.
Foi assim que, sem se aperceberem, ambas desapareceram exactamente ao mesmo tempo.

o ladrão de melodias (apocalipse outra vez)

O som da água é o do plástico das garrafas a estalar para voltar à forma moldada.

Tuesday, July 8, 2008

diz... diz lá...

Estou farto de estátuas

Friday, June 27, 2008

se não acreditas em gestos




Wednesday, June 25, 2008

aposto

O último bastião da Poesia a cair vai ser o verso da embalagem.

Wednesday, June 11, 2008

lost in translation - uma pequena história de Amor.

Um dia, uma truta de Viseu apaixonou-se por um lavagante inglês.
Ela falava o idioma dele, mas tinha o problema da pronúncia do interior. Ele não falava nada de Português.
Separados pela barreira da lingua, a relação não durou muito tempo: de cada vez que ela lhe queria chamar "Marisco" ele percebia "Egoísta".
Ele cansou-se.
Ela também.

Monday, June 9, 2008

O Braço

Num precipicio, numa terra perdida, há uma árvore gigantesca que paira no ar. Tem um ser que a segura, um bicho que não o é. O ser tem côr de leite, e forma de braço, um punho fechado sem dedos.
Na aldeia que sempre esteve junto do precipio conta-se que, há muitos anos, havia no topo uma gigantesca árvore que um dia decidiu atirar-se. Arrastou-se nos ramos velhos e quebradiços e caiu, como caem as coisas que se atiram.
Durante a queda, uma das sementes da velha árvore gritou de pânico, porque no entender dela não se morre assim, pequena mais do que pequena, semente.
E teria sido a própria terra a apiedar-se da semente, e a fazer crescer um pequeno dedo, apenas o suficiente para a semente se equilibrar.
Com a semente desligada da Terra, cabia ao Braço, então ainda Dedo (ou apenas Falange, Falanginha ou Falangeta) alimentá-la de tudo o que precisava.
Ao longo dos séculos cientistas estudaram o estranho Braço, hoje monstruoso que suporta uma árvore milenar de raizes no ar. Não se sabe o que come, o que bebe, como respira, se sintetiza, se fala. Mistério ainda maior é a árvore que cresce com as raízes a balançar no vazio.

Monday, June 2, 2008

Nostalgia

Apercebeu-se que, quanto mais crescia, mais pequenos lhe pareciam os prédios.
Por isso foi para Nova Iorque, ser criança outra vez.

Wednesday, May 28, 2008

Walk the ball (estimação)

video

Quero algo fresco, acabadinho de sair da cova.

Tuesday, May 27, 2008

Massive Attack - Angel



Alguém achou que um filme de 1932 sobre vampiros caia bem com a música.

Wednesday, May 21, 2008

os pequenos espaços pessoais fecharam à tarde

"...foi então que parou de chover, e os guarda-chuvas, que tinham sorrido abertamente durante toda a manhã, adormeceram em pé, abraçados em si mesmos."

Tuesday, May 20, 2008

o alfaiate

O alfaiate não faz fatos para ondas. Ele não confia em clientes que tenham de ser medidos de costas.

Monday, April 28, 2008

correntes

Aproximou-se dele, furiosa:
- Olhe o que fez! Despedaçou-me o coração!
- Desculpe, minha senhora... a senhora disse que era para assar...
- Guisar, seu incompetente! Guisar!
O talhante encolheu os ombros num gesto de lamento, olhando para o saco que a mulher depositou em cima do balcão:
- Bem, se a senhora quiser, eu terei todo o gosto em oferecer-lhe outro...- disse, como quem tenta remediar.
Ela encolheu os ombros por sua vez:
- Ainda não percebeu? Nunca vou arranjar um coração tão bom como este..
E dizendo isto, saiu.

Tuesday, April 22, 2008

conversa na Trindade

"(...)
- Criador, Criador... porque é que não criaste antes burros?.. - perguntei-lhe - Agora até há subsídios para isso...
Ele encolheu os ombros, e enquanto molhava o último bocado de pão no molho da segunda dose de conquilhas, disse como num lamento:

- Eu tentei... tenho o Senhor como testemunha... - mastigou o pão, quase choroso. - Deus sabe como tentei... (...)"


Thursday, April 17, 2008

um suave despertar

Tinha tido um suave despertar, tomado o pequeno-almoço tranquilamente, visto da janela os primeiros raios de Sol a despontar.
Passou o limiar da porta e entrou na rua. Olhou para o passeio do outro lado e pensou claramente "sempre que olho para uma palmeira, vejo um ananás gigante".
Foi nesse momento que lhe bateu uma enorme sensação de vazio. Não se lembrava de ter sonhado, não tivera um daqueles sonhos que ficam pendentes pelo toque do despertador; tinha tomado o mesmo pequeno-almoço de sempre, que tomava há anos sempre sem problemas, por isso também não seria daí; tinha consigo tudo aquilo que precisava para o resto do dia...
Foi então que se lembrou do homem que tinha deixado a dormir em cima da cama. Esquecera-se dele. Que estupidez, ia ter de voltar atrás...
Seria o seu primeiro atraso desde que começara a trabalhar. Nunca antes o Pijama se tinha atrasado, e logo por um motivo tão parvo...
"Onde é que eu tinha a cabeça?" pensou, ao correr de volta a casa.

Tuesday, April 15, 2008

"Os laços" - conto prático para a compra online

Era um homem que fazia todas as suas compras online: música, comida, roupa, para tudo tinha um site especifico, melhor do que os generalistas.
Eventualmente encontrou um site que vendia emoções: tristeza, alegria, raiva, compaixão, de tudo havia naquele site. Pelo preço certo, bastava o número do cartão de crédito e o utilizador recebia a emoção desejada na quantidade pretendida.
Desse site passou para outro: um que lhe permitia comprar amigos. Fez a sua primeira encomenda numa tarde de chuva.
Ao fim de alguns dias cancelou a encomenda, alegando que não tinha chegado a haver entrega.

o hipnotizador

Quando ligaram ao hipnotizador a dizer que no dia seguinte começaria a trabalhar num call-center, ele ficou deveras contente. Pensou na sua imensa capacidade para controlar as mentes por telefone, e como seria fácil conquistar o Mundo a partir do seu novo trabalho (os hipnotizadores são, regra geral, gente pouco democrática).
Assim, os dias de trabalho passaram-se entre "com quem tenho o prazer de estar a falar?..." e "escuta bem o som da minha voz..."; "receberá um sms de confirmação da mudança de tarifário" e "ao meu sinal, estarás sob o meu poder".
Tão entretido estava com controlar as mentes dos clientes que nem deu grande importância à repetição constante de todos os procedimentos, vezes e vezes sem conta.
Por isso, quando deu por ele, já era demasiado tarde. Era uma galinha.

à solta

Durante o dia, a minha imaginação anda sempre à solta.
Aqui há tempos, encontraram-na na rua, pensaram que estava abandonada e meteram-na na carrinha.
Quiseram abatê-la, mas não abateram.

Friday, April 11, 2008

aviso

Se corres, corro contigo.

Tuesday, April 8, 2008

génese

...então, como estava cheio de medo, dirigi-me à farmácia e comprei um teste de futilidade. Deu positivo, nota máxima aliás...
Assim, vou ter gémeos. Só espero que não saiam pela ordem errada.

vingança no jardim das bestas

Extenuado pela felicidade dos últimos dias, entreguei-me ao sono no final da tarde, não sem antes me debater, inclusivamente a mim mesmo.
Acordei com um sussurro doce. Era a tristeza.
Tinha-lhe andado a fugir durante todo o dia, sentindo-a no meu encalço de tempos a tempos. Percorri estradas, vi cidades, perdi-me, gastei até algum dinheiro em nada mais do que umas roupas (método que me tinham vendido como infalível), mas havia que admitir a verdade: tinha sido apanhado, finalmente.
Levou-me pela mão para sua casa. Mostrou-me todas as divisões com um tom neutro nos gestos, a voz silenciosa. Vinha-me à cabeça a expressão francesa que resume a confrontação com a coisa já vista. Tudo aquilo me era conhecido, como se tivesse peças iguais na minha própria casa, ou talvez ainda mais perto.
Quando terminámos o segundo andar, fiz-lhe o meu pedido, ao qual a tristeza acedeu servilmente, como a uma ordem:
- Mostra-me a cave.
Descemos as escadas, as mesmas que na minha memória sempre ficaram marcadas como "as escadas de qualquer cave imaginada" (a minha imaginação plagia-me muitas vezes as recordações).
O espaço não tinha mais luz que penumbra, as formas não eram mais que ténues. Era uma enorme sala rectangular, dividida ao meio por uma recta de luz muito definida, entre duas portas exactamente uma à frente da outra. Sentia-me como num enorme museu, uma gigantesca colecção privada de coisas nunca vistas, nunca mostradas, nunca perguntadas.
Ao fundo, de um dos lados, senti a presença colossal do Medo, o seu resfolgar ávido a adivinhar-se numa massa de ar quente que ia e vinha. Mais próxima estava uma grande pedra fria, ligeiramente mais baixa do que eu. Tinha contornos mutantes, um rosto liso como uma lápide, e segurava nas mãos um tabuleiro de jogo.
Do lado oposto da sala, tão grande e invisível quanto o Medo estava a Solidão. Percebia-lhe o corpo de prata nos reflexos escuros. Alimentavam-se da mais pálida luz. Do lado da Solidão também havia uma pedra, de tamanho idêntico ao da primeira. Encontrava-se mais próxima da luz do que a outra. Tinha cara mas não tinha coração, e numa das mãos segurava um saco de plástico vazio.
Foi ali no fio de luz que definia o corredor que mais uma vez me debati, agora indubitavelmente a mim mesmo.

Foi com a minha voz que acordei.

Monday, March 31, 2008

I scream

... de nojo
... de felicidade
... de rancôr
... de paixão
... de sonhos
... de madeira enterrada
... de amor
... de cegueira
... de dôr
... de improviso

com chantilly,
porque o chantilly disfarça tudo.



Sunday, March 23, 2008

dos discursos antes de adormecer

"..calculo que o céu tenha desbotado lentamente para ti. Deslizou-te o azul para debaixo dos pés, para a frente dos olhos. Ficou-te de costas para a nuca curvada.
No chão, o Sol ficou-te no Núcleo, a estratosfera no Manto. E no tecto ficaram os montes e vales, as florestas (é lá que agora sopram os ventos).
Verão a tua cara de pânico quando perceberes que demoraste demasiado a dar pela troca, e começares a cair no céu que pisas. O teu corpo vai disparar em direcção ao Sol, os pés para cima, a cabeça a berrar berros como labaredas de fogo de um minúsculo e ridículo foguetão..."


Thursday, March 20, 2008

estreia

Encontrei-o quando procurava o senhor Jaroslav Hutka, que aparece no final. Será do agrado de quem goste de barbas grisalhas, e é acompanhado por uma banda sonora envolvente. Estava no Youtube há dois meses e tinha zero visualizações.

Monday, March 17, 2008

policial pré-humanista

A porta bateu.
A porta bateu numa senhora de idade.
A porta bateu numa senhora de idade, roubou-lhe a carteira e fugiu. Deixou os documentos numa sarjeta, quatro quarteirões mais à frente.
Ao fim de um par de horas a porta foi apanhada.

Chamaram a senhora de idade à esquadra, que a identificou imediatamente.
("não, não é o alto moreno, não é o careca tatuado, não é o rapaz loiro de sardas, e não é o portão... é o número quatro...sim, tenho a certeza" - "Avance número quatro, obrigado aos restantes")

Trancaram a porta.
Trancaram a porta numa cela.
Trancaram a porta numa cela escura, sem primas janelas, com uma irmã surda que nunca se moveu.

Com a humidade a porta inchou. Para que não inchasse mais, envernizaram-na.
O verniz tapou-lhe os poros e sufocou-lhe a pele.
Morreu inchada mas brilhante.
E morreu fechada.

Assim se mata uma porta que bate.

ideias para a quarta dimensão

Concentre-se no seguinte estereograma e descubra os três estados de alma escondidos em 3d.

Agora multiplique os estados de alma pelo número de dimensões que vê.
Se o resultado não foi nove, adicione água.
Tempere a gosto.
Sirva quente.
Repita.

(esta receita sai na Teleculinária nº 1087)

Tuesday, March 11, 2008

Daqui a muitos anos, passeava eu pelo meu Passado cruzando-me a dada altura com um cheiro a Tempo putrefacto.
Páro e olhei: à minha frente estendeu-se, pequena elevação no chão, a enorme vala comum das horas perdidas.
Terei então de matar mais uma, para as poder enfim chorar condignamente, desaparecidas que estão há tanto tempo.
Eu, que ainda tinha esperança de as encontrar com vida.

Thursday, March 6, 2008

um desvio e uma espera (santa rita)

da porta de trás da camioneta frigorífica com matrícula espanhola que esperava à minha frente no cruzamento, pingava porco liquido para a estrada.

traição ou o arranjo


-...e então eu disse-lhe que não, que estava enganado, que não tinha nada a ver, e que... - deteve-se. - Olha, tu estás a ouvir?
Encolhi os ombros. Não, não estava a ouvir.
- O que é que tens? - perguntou.
- Tira os óculos, se fazes favor.
- Porquê?... - pareceu hesitar. - Vais-me dizer que és daqueles que não consegue falar com uma pessoa de óculos escuros?
- Tira os óculos. Quero só ver uma coisa.
Eram enormes, armação em plástico branco, daqueles que foram novidade ao mesmo tempo que a mini-saia e que por qualquer motivo decidiram voltar para me atormentar. Vi-a pousá-los na mesa e olhei-a. Era exactamente como eu pensava: da cana do nariz para cima, da testa para baixo, praticamente de um lado ao outro da cara, havia um enorme vazio. Mais do que enorme, um vazio total. Conseguia ver-lhe de frente o cabelo que taparia a parte de trás da cabeça.
- Posso voltar a pô-los?.. - notava-se-lhe na voz o orgulho ferido.
- Podes. - tentei disfarçar um riso de satisfação tipo "ah, eu sabia...". - Então e isso foi porquê, conta lá?
- Pois, tive um pequeno problema com a cara e tive de a levar à oficina. - tinha retomado a pose da segurança despreocupada. - Está pronta na sexta.
- Ah... é que eu pensava que as pessoas quando usavam óculos desses era porque tinham deixado a cara em casa, num grande copo com água, como as avós faziam com as dentaduras...
Encolheu os ombros.
- Não sejas parvo. Mas olha, como eu estava a dizer, não era nada do que ele pensava e...

Tuesday, March 4, 2008

crime

Não.
Porque todos os vizinhos o conheciam bem. Nunca o tinham visto tocar num copo sequer, nunca por uma vez o ouviram trautear uma modinha. Há anos que era um homem rigido, mas um bom homem.
Nada.
Desde que a mulher tinha ficado desfigurada, a cara feita em caramelo depois de um acidente doméstico com um fogão, ele apenas sorría por simpatia, por delicadeza, para não desiludir quem lhe procurava animar o rosto duro, os traços tristes.
Ninguém.
Ninguém acreditou na história da vizinha de cima, que ele vinha bêbedo, a cantar a plenos pulmões pela rua fora, noite dentro. Essa sim, era uma pessoa má, a vizinha, sempre a gozar com eles, a dizer que pessoas assim deviam vir em pacotes de 6/8 gramas, ou em colheres minúsculas. Tinha sido ela, sempre a dizer que o café sabia mal sem eles, mas que a sociedade ficava bem melhor.
Não.
Não havia lugar a acidente. Era crime, era maldade, era coisa de assassinos.
Porque só uma assassina despejaria um balde de água na cabeça do doce Homem de Açúcar.

banho

Monday, March 3, 2008

consideração

Nenhum homem habita realmente em sua casa até andar pela primeira vez com os pés em cima dos sofás.
"Estou a chorar um desgosto de Amor,
ele estava vivo quando o enterrei."

Friday, February 29, 2008

Se eu fosse...

Caro Pedro,

É parvo cantares o "Se eu fosse um dia o teu olhar", tu, que não tiras os óculos escuros desde a segunda edição do "Viagens".


(no seguimento de "Se eu fosse dar banho ao cão", em http://fait-d-i-v-e-r-s.blogspot.com/)

Thursday, February 21, 2008

"…vou deixar bem claro que sou o maior, e que sem mim ninguém pode viver.
Depois logo se vê… calculo que hão-de voltar para suas casas a pensar nisso.
Tudo correrá bem até encontrarem na rua alguém que vive sem mim. Encolherá os ombros e dirá duas coisas: que sim, vive; e sim, sem mim.

Tudo correrá bem até aí..."

Monday, February 18, 2008

pululam

Vê se cresces,
Vê se cresces, por aí, pelos cantos
como os cogumelos.
É isso,
vê se cresces.

Wednesday, February 6, 2008

Se um cross-dresser se vestir de mulher no Carnaval, está mascarado?

Wednesday, January 30, 2008

sangue

Havia já sete dias que pelas fontes e ribeiras das aldeias não corria uma gota de água. Era Inverno mas a água que chovia atravessava o chão e penetrava na terra sem se deter por um segundo. Mesmo quando as pessoas saíam à rua e punham as mãos em concha para apanhar as gotas caídas do céu estas desviavam-se com sons que pareciam pequenos risos trocistas.

Perante a gravidade da situação reuniram-se as aldeias e escolheu-se de entre todos os homens um apenas. Horas depois, no momento em que o escolhido saía da sua aldeia, os restantes habitantes começaram a retirar todos os espelhos que tinham em casa ou havia nas ruas.

Quando, no dia seguinte, conseguiu visar perfeitamente o alvo e prender firmemente a espingarda com o corpo, o homem pensou qualquer coisa que não conseguiu exactamente compreender o que era. Foi apenas uma fracção de segundo em que o seu pensamento andou longe dele.

Imediatamente a seguir disparou.

Até ao fim da vida haveria de ouvir perguntarem-lhe como tinha conseguido apanhar de costas uma montanha, que por natureza está sempre de frente para toda a gente. A única explicação que arranjou nunca convenceu nenhum dos então gratos, mas cépticos, aldeões:
- O meu pensamento fugiu-me por um momento... - repetia hesitante - eu acho que foi ao outro lado chamá-la para que não me visse a cara...

O tiro não foi certeiro, mas deixou moribunda a montanha. Estava cumprida a ordem do Conselho. O homem voltou então para a sua aldeia. As pessoas reuniam-se em redor das fontes e do pequeno curso de água que tinha voltado a correr, para verem os seus rostos e celebrar o regresso do espelho que nunca descansa. Uma velha chorava e percorria a sua própria cara com as mãos, "a decorar com os dedos o que os olhos não voltarão a ver", sussurrava nas pausas do pranto.

Três dias passaram até que a aldeia compreendesse as palavras da mulher. A água tinha voltado a evitar as aldeias. O céu carregado de nuvens escuras recusava-se a chover.

Das outras aldeias vieram emissários que exigiam que o homem fosse mandado de volta para a montanha e resolvesse o que estava mal. O conselho não foi sequer reunido. O homem não foi sequer chamado. Ia já na quinta hora do seu caminho.

Foi com o cair da noite que chegou até junto da montanha. Encontrou-a deitada,ainda com a cabeça cheia de neve, olhando de lado como quem tenta pegar no sono mas tem um pensamento que teima não largar.
Ele, homem, tinha decidido que a sua primeira pergunta seria sobre a dôr, se lhe doía o ferimento ou não; que a segunda sobre o porquê de não haver água nas aldeias; e a terceira seria se a montanha lhe perdoava tê-la apanhado de costas.
Sentou-se e olhou-a.

Conversaram durante alguns minutos. O homem ignorou totalmente as perguntas que tinha planeado. A montanha tinha uma voz suave, redonda de veludo, mas com uma ligeira roquidão de pedra. A conversa terminou quando a voz, cansada, se extinguiu.

"O teu tiro tirou-me água durante mais três dias. Três dias para lá daquilo que eu tinha prometido a mim mesma. Desde sempre sangrei água para o vale, à vista de todos. Agora tenho finalmente a vergonha que sempre quis. Que nunca compreendas como é arrogante o acto de sangrar à vista de todos."

O homem deixou-se ficar a velar o cadáver da montanha durante toda a noite, enterrando-a aos primeiros raios de Sol. Depois, lentamente, iniciou o regresso à aldeia.

Tuesday, January 22, 2008

Impacientava-se ao portão. Não tinha jeito para ver despedidas, embora já tivesse visto mil iguais àquela. Boris "O Gigante" tinha chorado, Klaus "O Homem-Foca", Elisabete "A Borracha Humana", Igor "O Deus do Fogo"... todos tinham chorado.
Olhou de esguelha para a porta. Lá estava o cenário habitual: os pais já completamente vencidos pelo pranto, a menina com um choro confuso. Aquilo ameaçava arrastar-se, claro...

Pigarreou.
Evitava pigarrear, e guardava todos os seus pigarreios para estas ocasiões.
Algo entre o "err... err" e o "hmm... hmm"
Foi assim que pigarreou.

Os pais da criança olharam-no. A mãe limpou as lágrimas, passou as mãos no avental, com os olhos muito abertos. Parecia preparada para lhe oferecer novamente "uma chávenazinha de café" na voz de tremura mal disfarçada com que o tinha feito havia pouco mais de um quarto de hora. O pai varreu a tristeza do rosto o melhor q pôde, e virou-se para a filha:

- Agora vais com este senhor, e vais-te portar muito bem, querida... sim? - mal conseguiu acabar a frase, de tantas vezes que lhe escapou a voz.
O homem ao portão estendeu a mão à criança:
- Vem.

A criança encaminhou-se para o homem cabisbaixa mas sem um queixume, com o medo estampado no rosto que ninguém via.
Quando o carro arrancou, o roçar dos pneus na gravilha sobrepôs-se ao pranto desalmado da mãe da criança. Do pai não mais se lhe viu um sorriso.

Assim saiu a Mulher Barbuda, então ainda menina, de casa dos seus pais para um estrelato em feiras itinerantes.

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Na aldeia de Roda Pequena, freguesia de Asseiceira, Concelho de Tomar, há um casal que há mais de um ano tem uma javali em casa. Perfeitamente afeiçoada aos donos, ela "corre, brinca, esfrega-se". Obedece aos comandos do dono: "anda cá","corre", "está quieta", "vai para o curral" [no jornal surgem por esta ordem, deve ter sido uma situação interessante].
Chamam-lhe Arisca por ter sido difícil de educar, e esteve muito doente durante algum tempo. Os donos deram-lhe leite por um biberão, curaram-lhe diarreias à base de farinha de trigo e leite. É "inteligente e asseada", o pêlo está bem tratado e lustroso, "o focinho aconchegado à vida doméstica".
Os donos já receberam propostas de venda mas não aceitaram.

Dizem que "há-de morrer de velha".
Dizem que "pode ser aproveitada para artista de circo".

Monday, January 14, 2008

Kiwi



Porque é que o Kiwi não há-de ser uma ave migratória?
Não voa, mas tem perninhas não tem?

rixa muda

video

guarda.

Diz-se que, há muito tempo atrás, havia na América do Sul uma tribo índia que usava papagaios coloridos para guardar as vozes daqueles que morriam.
Séculos depois inventaram-se os gravadores, os gira-discos, as cassetes.

É claro que o Mundo está a morrer.

Monday, January 7, 2008


No seu leito de Morte, Kandinsky confessou ter perdido rapidamente o prazer em jogar ao Stop:
"- Estavam-me sempre a pedir para fazer as tabelas de toda a gente. E discutir se Andorra contava ou não para países com A também perdeu a piada num instante."

Uma causa.

Cenário: um parque de estacionamento subterrâneo na Lisboa do século XIX. Uma charrete de dois cavalos faz um estacionamento em baliza. Mal se detém, um dos cavalos explode. Imediatamente a seguir explode o outro. Todos os cavalos no parque explodem.

Voz OFF:
"A Combustão Espotânea Equestre sempre foi uma realidade.
Junte-se à campanha pelo fim da proibição de carros a gás em parques subterrâneos."
- Queria pagar o café.
- Secenta centimos, se faz favor.
- Perdão?
- Sessenta cêntimos.
- Com certeza.

Thursday, January 3, 2008

de palavras (o boato)

Nesse momento ela chamou-o. Estavam só os dois, mas mesmo assim chamou-o. Sem voz, a mão dele na dela.
Atravessaram o limiar da porta e entraram no quarto. Ele sabia porque estavam ali, mas ela sabia-o ainda melhor.
Era segredo.
Ela sentou-se na cama, as pernas cruzadas, as mãos nos tornozelos a olhar para ele.
- Senta-te. – disse-lhe meigamente.
Sem saber porquê, foi com timidez que cumpriu a ordem. Sentia-se ultrapassado, quase subjugado. Os pés no chão, o corpo de lado. Ela sorriu paciente. Ele sabia que transbordava nervosismo.
Ela sussurrou-lhe um beijo à boca. Com um sorriso perguntou-lhe, com a mesma doçura de sempre:
- Tu sabes porque estamos aqui?
- Sei sim. – respondeu em voz trémula.
Ela não desfez o sorriso, mas foi com firmeza terna que lhe disse:
- Não, não sabes.
Depois, devagar, explicou-lhe. Explicou-lhe o segredo que se esconde por detrás da maior das mentiras. A enorme conspiração que se faz de gestos nas costas de quem não sabe. Um toque no nariz, um encolher de ombros especial, todos sinais discretos que serviam simplesmente para dizer “eu sou dos que sabe”.
Naquela noite, naquela cama, ela explicou-lhe o que sabia, e o que soube desde que lhe tinha feito um sinal com o anelar e o polegar ao qual ele não respondeu. A maior das sociedades secretas, o segredo mais contado do mundo que era afinal uma enorme mentira.
- Eu sempre desconfiei que fosse realmente outra coisa. – disse-lhe ele no final.
- Eu sei. Algumas das pessoas que não sabem aceitam simplesmente o que lhes apresentam; outras, raras, preferem desconfiar. Acho que foi por isso que decidi contar-to a ti.
- Sou o primeiro a quem contas? – perguntou-lhe a medo.
Ela devolveu-lhe um olhar de infinita doçura:
- Um segredo revelado é como um corpo sem vida. E eu sou uma romântica, só mato por Amor.

Um assassino é um sádico que não sabe brincar, porque estraga sempre os brinquedos e detesta que digam que a culpa é dele quando rebenta a bolha.