Tuesday, November 27, 2007

Depressa,


antes que seja tarde demais.

A borboleta bíblica.

Judas não se enforcou numa figueira por arrependimento ou tristeza...
Judas enforcou-se pois sonhava reencarnar num bonito figo.

Monday, November 26, 2007

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Há já quatro dias que a luz da cozinha está a tentar comunicar...

Wednesday, November 21, 2007

Raiva

Claro que me lembro.

Sentia-me um bocado indisposto nesse dia: tonturas, frases soltas, silêncios enormes.
Calhou ser à tua frente que a coisa atingiu o auge.
Disseste-me uma banalidade qualquer, daquelas às quais eu normalmente encolho os ombros e respondo com um desprezo ácido que à primeira vista parece uma ignorância desleixada, ou pura e simplesmente a denúncia de uma personalidade passiva e pouco dada a tomadas de posição.

Por mim teria sido essa a resposta que levarias.

Mal abri a boca para soltar a costumeira exclamação insipida ou o murmúrio de solidariedade de quem realmente não se quer comprometer, senti algo diferente em mim.
Algo me trepava e corroía as entranhas, uma qualquer coisa sem sabor.

A espuma saiu-me da boca em jorros espessos. Por um segundo achei que bastaria um lencinho qualquer, mas desisti logo da ideia. Longe de me preencher apenas a boca e o queixo, escorreu e alastrou-se até aos braços.

Senti-a penetrar-me nos membros através da pele, da carne, e agarrar-me os ossos. Nesse momento a torrente parou, e lembro-me que o último bocado tinha um travo a livros velhos daqueles que se guardam, esquecem e se ignoram nas prateleiras durante muitos anos.

Não me lembro que cara fizeste quando os meus braços se mexeram sem eu os mandar. Apesar de não a ver, sei que eu não fiz cara nenhuma.
Agarrei-te o pescoço e comecei a apertar. Não te li os olhos, não te senti debateres-te de pânico, não te ouvi um grito sequer. Talvez um vago gemido qualquer de piedade.

Ou então sou só eu a romantizar a coisa.

Senti o teu pescoço emagrecer entre as palmas das minhas mãos. Os meus dedos riam um riso que eu nunca antes lhes tinha ouvido.
Vi-te ficar de todas as côres e aí sim, fiquei pasmado, porque não sabia que uma cara humana podia passar por tantas côres. Vi que os teus olhos tentavam sair da tua cara, como os ratos fogem de uma mina antes de um terramoto, ou pessoas saltam de um prédio condenado.

Os meus dedos ouviram o som de algo a partir-se entre eles. A tua boca também emitiu qualquer coisa, mas não consigo definir o que foi ao certo.

Inerte o teu pescoço fica mais pesado.

Rodei a mão direita, até ficar lado a lado com a esquerda.
Voltei a apertar. Uma das mãos não podia apertar inteira, por isso usei-lhe apenas o polegar e o indicador. Primeiro tentei separar, mas não gostei da sensação.
Rodei as mãos em sentidos opostos, e consegui finalmente rasgar-te um pouco da pele. Finalmente conseguia conhecer-te o interior. Devo dizer-te que não era tão bonito quanto eu pensava. A carne revelou-se muito menos complexa do que uma alma humana imaginada.

Depois, dobrei-te o pescoço, como se fazia na primária com os lápis que partiamos só porque sim. Porque em criança é bom sentirmos que ganhamos força para partir qualquer coisa.

Mas há algo que te quero confessar:
Mesmo antes de ligar a pedir ajuda, abracei-te. Não foram os meus braços que me forçaram, nem a espuma. Apeteceu-me apenas abraçar-te, porque tu nunca me deixas abraçar-te.

Tudo o resto juro-te que foi sem querer.

Silêncio

Não peças licença ao ar que cortas,
que já o levas embalado

Tuesday, November 20, 2007

Cheiro a chuva

"Bomba! - gritou uma voz de chuva.
Então, num único movimento, todas as folhas se atiraram para o chão.
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A senhora entrou quieta no quarto onde já se encontrava.
Preparou-se para dormir, mas não se deitou. Uma senhora nunca se deita.
Ficou de pé, porque é uma senhora.
Devagar, debaixo dos seus lençóis cinzentos de Inverno, adormeceu.
As árvores também hibernam.

Friday, November 16, 2007

Tuesday, November 13, 2007

Hoje sonhei.

Hoje sonhei que havia um escorrega novo ao pé da minha casa. No alto do parque, por entre os pinheiros que fazem com que aquele parque seja igual todo o ano, lá estava ele.
Sempre gostei de escorregas. Uma das piores coisas em se ser adulto é já não se poder andar de escorrega sem pagar para ir a um parque aquático. E nem sequer é bem a mesma coisa...

Tinham portanto feito um escorrega novo no parque. Era na realidade um escorrega duplo, muito parecido com o que havia n'O Século: um amarelo e um vermelho, com dois saltos pelo meio.

Aproximei-me. O pessoal subiu e eu fiquei cá em baixo, à espera de ver se aquilo aguentava com adultos. Aguentou.

Por esta altura o escorrega duplo já era apenas um único, o amarelo.

Enchi-me de coragem e preparei-me para descer aquele monstro altissimo. O escorrega tinha de facto crescido, baseava-se agora num enorme edificio, esguio mas muito alto. As paredes eram brancas, as portas e as janelas eram azuis. Subi umas escadas castanhas escuras, com degraus de escadas normais.

Neste momento o escorrega já não era um escorrega, na verdade, era mais um prédio onde eu sabia que tinha de entrar para ir para o escorrega.

No alto das escadas cheguei a uma porta e entrei. O ambiente era o de umas piscinas públicas, ecos e mais ecos e vozes.

Estava lá um senhor que não me disse uma palavra. Como que em resposta a este silêncio, chegou um amigo meu da primária que me disse: "tens de ir buscar a chave."

Dirigi-me para um quadro electrico onde, carregando na parte de cima se dava acesso a um chaveiro. Não estava lá a chave. O meu amigo deu-me a chave não sei como.

Era o momento da verdade. Aproximei-me completamente sozinho da porta que eu sabia ia dar ao escorrega. Imaginei como devia ser alto, mas estava cheio de vontade de descer aquilo.

Não me lembro de como era a imagem quando passei a porta. Lembro-me que vi as coisas de fora: estava no alto de um escorrega amarelo gigante, e havia muito vento. Lembro-me que tive medo mas escorreguei por ali abaixo e foi brutal.

Nessa altura acho que acordei na realidade. Voltei a pegar no sono.

Vi uma grelha de partida de um Grande Prémio. Começavam a dar pelos últimos lugares, e eram só velhotas: lembro-me que a última tinha o tempo de 55".

Pensei "Não sabia que havia tempos. Se soubesse tinha descido mais depressa."

Os tempos continuavam a passar, e as pessoas iam mudando à medida que se avançava mais na grelha: as velhotas davam lugar a pessoal mais novo, gajos com tempos de 18".

Depois acordei. Não sei que tempo fiz.

Monday, November 12, 2007

cabeceira

Nunca percas o teu copo de água,
Eu sei que é nele que guardas os teus sonhos.

Eu tenho macaquinhos no sotão...

...e são suecos.



"Se x macacos carregarem aleatoriamente nas teclas de máquinas de escrever, eventualmente hão-de escrever uma obra completa de Shakespeare, mesmo que isso demore milhões de anos."

Felizmente alguém os parou a tempo.
E assim se descobriu que os macacos, em vez de Shakespeare, tinham feito isto:



The Knife - We share our Mother's health.

Saturday, November 10, 2007

Registo

Saturday, November 3, 2007

Num Mundo sem água, as artes do Mar vão sobreviver nos nós das gravatas.

Friday, November 2, 2007

440

Injectaram-me um grito mudo na boca.

E agora?
Quem é que o grita por mim?