Friday, April 13, 2007

O melhor de todos os bigodes.

Aquele homem, que me entrava pela casa durante a manhã, pela janela dos fundos (a televisiva);

o mesmo homem que pôs pais e filhos a deslizarem pratos sobre uma toalha aos quadrados (tudo deliciosamente plástico), nas manhãs de sábado ou domingo, que na altura ainda deviam (deviam!) ter desenhos animados;

o homem a quem todos os júris de um festival nacional da canção chamaram Zé Luís tantas vezes como as capitais de distrito (e tantas foram as vezes que ele disse "Manuel Luís... Manuel Luís...")

esse homem...

Um dia liguei a televisão e o bigode já não estava lá... foi tema para uma manhã inteira de conversas, e músicas pela banda do programa;

e esse homem deixou de ser esse homem para mim;

ele fica mais novo a cada dia que passa...

era o bigode... o bigode era o parasita dele.. não era um bigode, eram umas asas enormes num bicho minúsculo..

é isso que é um bigode.. não é?

um bigode ataca a cara de alguns homens... às vezes fica durante anos...

é todo um segredo do universo masculino agora revelado: essas idas secretas ao médico ("doutor, o que é isto que tenho na cara??.. isto respira, movimenta-se!".. - os ares alarmados, os choros de criança em homens crescidos, de pânico refugiado na segurança do segredo profissional do homem-medicina), sob a capa de uma visita a uma amante invariavelmente secreta, por sua vez escondida atrás de uma desculpa qualquer ouvida há anos num qualquer programa ficção nacional para toda a familia;

ele fica grisalho, balança mas não cai...

e os médicos fazem um ar assustado...

à segunda consulta já há um espirita (olha a concordância, essa gramática) ao lado do médico, uma mesa de pé de galo no lugar da marquesa, e velas sem sombra de jantar romântico...

e o espirita chama o espiga-rodrigo, que vem da cave lá mesmo do fundo..

que aparece sorrindo aos pulinhos, com ar de criança a quem vão oferecer um doce...

o espirita (ok, o médium) diz-lhe com maus modos, estendendo-lhe o parasita arrancado à força da face do doente:

"Toma.. és o único gajo que conheço que gosta disto.."

e o diabo vai-se, porque guarda os bigodes como borboletas, num dos enormes quadros da vida selvagem que lhe enchem as paredes da sala-de-estar

e paga sempre o mesmo preço: tira uns quantos anos de cima das costas do parasitado...


Olhando agora para o outro senhor, porque ele ainda não perdeu o hábito de aparecer pela mesma janela de sempre, às mesmas horas de sempre, compreendo: o bigode foi para o diabo como a mais bela das borboletas, que lhe enche o coração de belos pensamentos, e o faz esquecer-se até do aroma fétido dos infernos (elimina o cheiro a enxofre como as pastilhas que tiram o calcário das máquinas - mesmo nos locais de suplicio eterno mais entranhado)

de cada vez que olha para aquele bigode, faz rodar para a esquerda os ponteiros do relógio da idade daquele que o soube alimentar para ficar assim belo, forte e robusto, digno de terminar em apoteose silenciosa na moldura comprada por Belzebu numa loja especializada..