Friday, January 23, 2009

se existissem...

...os gigantes podiam servir para fazer espectáculos de fantoches à escala humana.

Tuesday, January 20, 2009

cristo-rei-pescador


Mas afinal, o que é isto?

Monday, January 19, 2009

a menina dança

“…cantar canções intermináveis ao lado de comboios. Aproveitar-lhes a nota contínua da corrente eléctrica enquanto repousam, e partir dela para uma canção interminável. A tónica dada por um gigante adormecido até serem horas de percorrer quilómetros, de dar às pessoas a magia de deslizarem sentadas pelo espaço. Como será a sala onde uma pessoa poderá dar um concerto lado a lado com uma locomotiva?
Algures, não muito longe, há pés que tocam o chão com o vigor das horas perdidas, da raiva espremida, do alívio da libertação.
São palavras escondidas em florestas de aspas, guardadas em caixas-fortes de olhares.
Não é um conto, é um retrato."


Música:
Eberhard Weber
- Delirium

Thursday, January 15, 2009

momento hedonista

Wednesday, January 14, 2009

fala

Os dias estão a crescer. Quando souberem falar, o que é que vão dizer de nós?

Tuesday, January 13, 2009

ræpto

"Um Homem não é uma ilha."

Thursday, January 8, 2009

miséria mitológica


A criatura mais infeliz do Mundo


é um ciclope estrábico.

finalmente um quadro


"Le grand nu - Cadre doré"
2007
Kolkoz

Wednesday, January 7, 2009

George Duche




Monday, December 22, 2008

Bocage - Relatório e Contas (1889)

"Profundamente inquieto, Bocage percorre a sala de um lado ao outro infinitas vezes, sob o olhar atento do seu contabilista. De súbito, detém-se:
- E o Amor, Artur? - pergunta. - Onde está afinal o Amor?
Retirando uma folha da resma que tinha à secretária, o contabilista responde-lhe de pronto:

- Está aqui, Sr. Bocage: Existências, bens pereciveis.
O poeta volta a sentar-se.
- Claro, Artur. Bens perecíveis..."

Thursday, December 18, 2008

existenciais

What kind of man will Bubble-Boy grow up to be?

Monday, December 15, 2008

ide...

...nas Pás do Senhor.

o Pai Natal não existe...

... é apenas um part-time do Capitão Iglo durante as férias.

Wednesday, December 10, 2008

Manifesto do Sono (com e sem h)

"- Integrar na vida activa uma franja marginalizada da população nacional.
- Combater o défice produtivo mediante novas políticas de trabalho.
- Optimizar o horário nocturno, a exemplo do que acontece no horário diurno.
- Valorizar a totalidade do capital humano nacional.
- Minimizar, se não eliminar, assimetrias sociais, oferecendo oportunidades àqueles que anteriormente não as tinham.
- Fazer face à crise global, com acções construtivas que voltam a colocar o país na vanguarda das políticas de, e para, o Desenvolvimento.
(...)"

Os tópicos, lidos um por um pelo Chefe de Estado em discurso perante uma Assembleia semi-despida de representantes nacionais, iam recolhendo ténues ovações de uma bancada, insípidas manifestações de desagrado por parte de outra, e um muito vincado silêncio entediado por parte das restantes. O projecto-lei seria, uma vez ultrapassada uma fase de pergunta-resposta ("Olhe que não, Doutor..."; "Vamos falar verdade, senhor primeiro-ministro...") pouco menos que automatizada, votado e aprovado.

Significava isto que todos os membros da população nacional em idade adulta seriam integrados, mediante mecanismos pré-estabelecidos em acórdãos, leis, alíneas, de forma progressiva na vida activa. A medida, com efeitos imediatos, partia afinal de uma simples premissa, facilmente apresentada em forma de pergunta:

"Que motivos reais e racionais existem para que um país com uma elevada taxa de desemprego pare de forma tão evidente durante as horas da noite?"

De maneira a assegurar o perfeito funcionamento dos fluxos urbanos e maximizar o tempo disponivel sem sacrificio do mesmo em actividades acessórias como deslocações (casa -> trabalho \ trabalho -> casa) foram criadas habitações próprias para os trabalhadores deste horário nocturno. O fim das deslocações nocturnas tinha ainda um outro ponto a favor: perante o volume irrelevante de trabalho, os transportes públicos nocturnos deixavam de ter expressão ou significado, pelo que os seus activos humanos seriam reintegrados à luz das novas filosofias de trabalho.

Os alojamentos viriam a surgir em poucas semanas, mudando completamente a face das cidades: eram, na sua esmagadora maioria, compostos por enormes torres pretas, de traço arquitectónico simples. Todos os prédios contavam numerosos quartos, andares, algumas portas e nenhuma janela. Tudo para que a luz do dia não perturbasse o descanso daqueles que tão voluntariosamente aplicavam as suas forças durante a noite em tão elevada causa nacional.
Foi num dia solene, marcado por um evento simbólico numa qualquer vila remota, que todos os reintegrados tomaram posse das suas novas habitações. Para elas foram transferidos novos e velhos, cegos, brancos, pretos, apáticos, irrequietos e incómodos. Todos aqueles que no momento da publicação em Diário da Republica se encontravam sem ocupação fixa, sem rendimento declarado.

O país dividiu-se então em dois: dia e noite, cada facção separada por uma enorme barreira, uns pelo lado de dentro, outros pelo lado de fora. Lentamente, após alguma contestação, os do dia acabaram por se acomodar ao luxo da Luz, ao conforto da sensação de que, ao fim de cada dia de trabalho, a missão não só estava cumprida, mas era, acima de tudo, prosseguida, num movimento imparável que, indubitavelmente se revelaria benéfico para todos. E esse sentimento era exponencialmente rejuvenescido de cada vez que olhavam ao longe as enormes torres negras.

Mas, e é apenas para dizer isto que este texto existe:
À terceira semana, longe dos olhares exteriores, entre os poços dos elevadores e sobre os degraus das intermináveis escadarias, já todos os habitantes das torres tinham aprendido a voar.

Thursday, December 4, 2008

torralta

Não sou esquizofrénico, tenho é um complexo sistema de timesharing em funcionamento na minha cabeça.

Tuesday, December 2, 2008

instantâneo

Saiu de casa munido de uma mangueira e de uma enorme colher de sobremesa.
Se o Mundo estava feito em pó, ele ia arranjar maneira de o beber.

Thursday, November 27, 2008

incrível

Há horas extraordinárias que se revelam extremamente banais.

Wednesday, November 26, 2008

ego

Tuesday, November 25, 2008

primeira lição
















Um playmobil nunca tem dôr de cotovelo.

Tuesday, November 18, 2008

janelas são bocas

O menino caminhava pelas ruas e ouvia vozes. Caminhava pela mão da mãe, e ouvia vozes que ela não ouvia. Vezes sem conta o menino lhe puxava o braço e chamava por ela, mas ela nunca o ouvia, por ir tão alto.
Eram as vozes das janelas dos prédios que o menino ouvia, a contarem as suas histórias umas às outras, e a quem mais as quisesse ouvir. Quanto mais aberta estava, mais alto a janela falava, porque janelas são bocas.
Ouvia todas as histórias e guardava-as com todo o cuidado. Guardava-as nos bolsos, entre todas as coisas que os meninos são capazes de guardar nos bolsos, ou simplesmente levava-as para casa, embrulhadas nas mãos cobertas de terra ("limpa as mãos, Francisco... não te disse para não ires jogar para o meio da terra?").
Quando regressava a casa, ia direito para o quarto ("vai fazer os deveres, Francisco."), fechava a porta e chegava-se à janela. À sua própria janela, a que falava para ele, a janela do quarto do menino. Ajoelhava-se junto à moldura de Mundo e desembrulhava a história que tinha conseguido levar intacta até casa. Depois, as histórias começavam a contar-se à janela, que as ouvia com um sorriso.
A janela do quarto do menino era uma janela diferente: tinha sido montada ao contrário, muitos anos antes do Francisco entrar naquele quarto pela primeira vez. Aterrorizada, tinha chamado o carpinteiro até ficar sem voz, tentado explicar-lhe o equivoco. Mas o carpinteiro não ouvia vozes, muito menos janelas.
Todos os dias o menino levava uma história nova à sua janela que vivia de costas para o Mundo: as janelas de um último andar que não podiam ser mais diferentes (uma tinha vertigens e vivia sempre em pânico, a outra sonhava um dia poder voar); a janela de um rés-do-chão que por ter o trinco estragado havia anos não se podia calar e que por isso tinha começado a contar alto (já tinha acabado os números, as letras e contava agora em nomes de pessoas de um país enorme, muito para lá de todos os prédios da rua).
No final, a janela aplaudia, o menino agradecia, e a história contada pedia licença para se retirar. A maior parte das histórias voltaria um dia mais tarde, para fazer companhia à janela cega.
Mas um dia, tinha o menino saído, a janela começou a chorar a meio da conversa com a história da clarabóia que era solista no coro do telhado, exactamente no mesmo momento em que a mão da mãe do Francisco começou a jorrar sangue pelo passeio, criando pequenas poças vermelhas.
Uma pedra, nascida a voar não se sabia de onde, tinha sido atirada à janela. A janela ficou ilesa, mas o menino, que se encontrava a ruas e ruas de distância, espalhou-se pelo chão em mil pedaços de cristal.

Durante os anos seguintes, viria gente de longe para admirar o fenómeno do quarto virado para o Sol que estava sempre escuro, apesar da enorme janela completamente aberta.
Ou então não viria ninguém, e horas depois de serem varridos os últimos estilhaços de criança do passeio, a janela deixar-se-ia cair de costas, vendo finalmente passar por breves segundos o Mundo que um carpinteiro surdo lhe tinha negado.