Monday, December 15, 2008
Wednesday, December 10, 2008
Manifesto do Sono (com e sem h)
"- Integrar na vida activa uma franja marginalizada da população nacional.
- Combater o défice produtivo mediante novas políticas de trabalho.
- Optimizar o horário nocturno, a exemplo do que acontece no horário diurno.
- Valorizar a totalidade do capital humano nacional.
- Minimizar, se não eliminar, assimetrias sociais, oferecendo oportunidades àqueles que anteriormente não as tinham.
- Fazer face à crise global, com acções construtivas que voltam a colocar o país na vanguarda das políticas de, e para, o Desenvolvimento.
(...)"
Os tópicos, lidos um por um pelo Chefe de Estado em discurso perante uma Assembleia semi-despida de representantes nacionais, iam recolhendo ténues ovações de uma bancada, insípidas manifestações de desagrado por parte de outra, e um muito vincado silêncio entediado por parte das restantes. O projecto-lei seria, uma vez ultrapassada uma fase de pergunta-resposta ("Olhe que não, Doutor..."; "Vamos falar verdade, senhor primeiro-ministro...") pouco menos que automatizada, votado e aprovado.
Significava isto que todos os membros da população nacional em idade adulta seriam integrados, mediante mecanismos pré-estabelecidos em acórdãos, leis, alíneas, de forma progressiva na vida activa. A medida, com efeitos imediatos, partia afinal de uma simples premissa, facilmente apresentada em forma de pergunta:
"Que motivos reais e racionais existem para que um país com uma elevada taxa de desemprego pare de forma tão evidente durante as horas da noite?"
De maneira a assegurar o perfeito funcionamento dos fluxos urbanos e maximizar o tempo disponivel sem sacrificio do mesmo em actividades acessórias como deslocações (casa -> trabalho \ trabalho -> casa) foram criadas habitações próprias para os trabalhadores deste horário nocturno. O fim das deslocações nocturnas tinha ainda um outro ponto a favor: perante o volume irrelevante de trabalho, os transportes públicos nocturnos deixavam de ter expressão ou significado, pelo que os seus activos humanos seriam reintegrados à luz das novas filosofias de trabalho.
Os alojamentos viriam a surgir em poucas semanas, mudando completamente a face das cidades: eram, na sua esmagadora maioria, compostos por enormes torres pretas, de traço arquitectónico simples. Todos os prédios contavam numerosos quartos, andares, algumas portas e nenhuma janela. Tudo para que a luz do dia não perturbasse o descanso daqueles que tão voluntariosamente aplicavam as suas forças durante a noite em tão elevada causa nacional.
Foi num dia solene, marcado por um evento simbólico numa qualquer vila remota, que todos os reintegrados tomaram posse das suas novas habitações. Para elas foram transferidos novos e velhos, cegos, brancos, pretos, apáticos, irrequietos e incómodos. Todos aqueles que no momento da publicação em Diário da Republica se encontravam sem ocupação fixa, sem rendimento declarado.
O país dividiu-se então em dois: dia e noite, cada facção separada por uma enorme barreira, uns pelo lado de dentro, outros pelo lado de fora. Lentamente, após alguma contestação, os do dia acabaram por se acomodar ao luxo da Luz, ao conforto da sensação de que, ao fim de cada dia de trabalho, a missão não só estava cumprida, mas era, acima de tudo, prosseguida, num movimento imparável que, indubitavelmente se revelaria benéfico para todos. E esse sentimento era exponencialmente rejuvenescido de cada vez que olhavam ao longe as enormes torres negras.
Mas, e é apenas para dizer isto que este texto existe:
À terceira semana, longe dos olhares exteriores, entre os poços dos elevadores e sobre os degraus das intermináveis escadarias, já todos os habitantes das torres tinham aprendido a voar.
- Combater o défice produtivo mediante novas políticas de trabalho.
- Optimizar o horário nocturno, a exemplo do que acontece no horário diurno.
- Valorizar a totalidade do capital humano nacional.
- Minimizar, se não eliminar, assimetrias sociais, oferecendo oportunidades àqueles que anteriormente não as tinham.
- Fazer face à crise global, com acções construtivas que voltam a colocar o país na vanguarda das políticas de, e para, o Desenvolvimento.
(...)"
Os tópicos, lidos um por um pelo Chefe de Estado em discurso perante uma Assembleia semi-despida de representantes nacionais, iam recolhendo ténues ovações de uma bancada, insípidas manifestações de desagrado por parte de outra, e um muito vincado silêncio entediado por parte das restantes. O projecto-lei seria, uma vez ultrapassada uma fase de pergunta-resposta ("Olhe que não, Doutor..."; "Vamos falar verdade, senhor primeiro-ministro...") pouco menos que automatizada, votado e aprovado.
Significava isto que todos os membros da população nacional em idade adulta seriam integrados, mediante mecanismos pré-estabelecidos em acórdãos, leis, alíneas, de forma progressiva na vida activa. A medida, com efeitos imediatos, partia afinal de uma simples premissa, facilmente apresentada em forma de pergunta:
"Que motivos reais e racionais existem para que um país com uma elevada taxa de desemprego pare de forma tão evidente durante as horas da noite?"
De maneira a assegurar o perfeito funcionamento dos fluxos urbanos e maximizar o tempo disponivel sem sacrificio do mesmo em actividades acessórias como deslocações (casa -> trabalho \ trabalho -> casa) foram criadas habitações próprias para os trabalhadores deste horário nocturno. O fim das deslocações nocturnas tinha ainda um outro ponto a favor: perante o volume irrelevante de trabalho, os transportes públicos nocturnos deixavam de ter expressão ou significado, pelo que os seus activos humanos seriam reintegrados à luz das novas filosofias de trabalho.
Os alojamentos viriam a surgir em poucas semanas, mudando completamente a face das cidades: eram, na sua esmagadora maioria, compostos por enormes torres pretas, de traço arquitectónico simples. Todos os prédios contavam numerosos quartos, andares, algumas portas e nenhuma janela. Tudo para que a luz do dia não perturbasse o descanso daqueles que tão voluntariosamente aplicavam as suas forças durante a noite em tão elevada causa nacional.
Foi num dia solene, marcado por um evento simbólico numa qualquer vila remota, que todos os reintegrados tomaram posse das suas novas habitações. Para elas foram transferidos novos e velhos, cegos, brancos, pretos, apáticos, irrequietos e incómodos. Todos aqueles que no momento da publicação em Diário da Republica se encontravam sem ocupação fixa, sem rendimento declarado.
O país dividiu-se então em dois: dia e noite, cada facção separada por uma enorme barreira, uns pelo lado de dentro, outros pelo lado de fora. Lentamente, após alguma contestação, os do dia acabaram por se acomodar ao luxo da Luz, ao conforto da sensação de que, ao fim de cada dia de trabalho, a missão não só estava cumprida, mas era, acima de tudo, prosseguida, num movimento imparável que, indubitavelmente se revelaria benéfico para todos. E esse sentimento era exponencialmente rejuvenescido de cada vez que olhavam ao longe as enormes torres negras.
Mas, e é apenas para dizer isto que este texto existe:
À terceira semana, longe dos olhares exteriores, entre os poços dos elevadores e sobre os degraus das intermináveis escadarias, já todos os habitantes das torres tinham aprendido a voar.
Thursday, December 4, 2008
torralta
Não sou esquizofrénico, tenho é um complexo sistema de timesharing em funcionamento na minha cabeça.
Tuesday, December 2, 2008
instantâneo
Saiu de casa munido de uma mangueira e de uma enorme colher de sobremesa.
Se o Mundo estava feito em pó, ele ia arranjar maneira de o beber.
Se o Mundo estava feito em pó, ele ia arranjar maneira de o beber.
Thursday, November 27, 2008
Wednesday, November 26, 2008
Tuesday, November 25, 2008
Tuesday, November 18, 2008
janelas são bocas
O menino caminhava pelas ruas e ouvia vozes. Caminhava pela mão da mãe, e ouvia vozes que ela não ouvia. Vezes sem conta o menino lhe puxava o braço e chamava por ela, mas ela nunca o ouvia, por ir tão alto.
Eram as vozes das janelas dos prédios que o menino ouvia, a contarem as suas histórias umas às outras, e a quem mais as quisesse ouvir. Quanto mais aberta estava, mais alto a janela falava, porque janelas são bocas.
Ouvia todas as histórias e guardava-as com todo o cuidado. Guardava-as nos bolsos, entre todas as coisas que os meninos são capazes de guardar nos bolsos, ou simplesmente levava-as para casa, embrulhadas nas mãos cobertas de terra ("limpa as mãos, Francisco... não te disse para não ires jogar para o meio da terra?").
Quando regressava a casa, ia direito para o quarto ("vai fazer os deveres, Francisco."), fechava a porta e chegava-se à janela. À sua própria janela, a que falava para ele, a janela do quarto do menino. Ajoelhava-se junto à moldura de Mundo e desembrulhava a história que tinha conseguido levar intacta até casa. Depois, as histórias começavam a contar-se à janela, que as ouvia com um sorriso.
A janela do quarto do menino era uma janela diferente: tinha sido montada ao contrário, muitos anos antes do Francisco entrar naquele quarto pela primeira vez. Aterrorizada, tinha chamado o carpinteiro até ficar sem voz, tentado explicar-lhe o equivoco. Mas o carpinteiro não ouvia vozes, muito menos janelas.
Todos os dias o menino levava uma história nova à sua janela que vivia de costas para o Mundo: as janelas de um último andar que não podiam ser mais diferentes (uma tinha vertigens e vivia sempre em pânico, a outra sonhava um dia poder voar); a janela de um rés-do-chão que por ter o trinco estragado havia anos não se podia calar e que por isso tinha começado a contar alto (já tinha acabado os números, as letras e contava agora em nomes de pessoas de um país enorme, muito para lá de todos os prédios da rua).
No final, a janela aplaudia, o menino agradecia, e a história contada pedia licença para se retirar. A maior parte das histórias voltaria um dia mais tarde, para fazer companhia à janela cega.
Mas um dia, tinha o menino saído, a janela começou a chorar a meio da conversa com a história da clarabóia que era solista no coro do telhado, exactamente no mesmo momento em que a mão da mãe do Francisco começou a jorrar sangue pelo passeio, criando pequenas poças vermelhas.
Uma pedra, nascida a voar não se sabia de onde, tinha sido atirada à janela. A janela ficou ilesa, mas o menino, que se encontrava a ruas e ruas de distância, espalhou-se pelo chão em mil pedaços de cristal.
Durante os anos seguintes, viria gente de longe para admirar o fenómeno do quarto virado para o Sol que estava sempre escuro, apesar da enorme janela completamente aberta.
Ou então não viria ninguém, e horas depois de serem varridos os últimos estilhaços de criança do passeio, a janela deixar-se-ia cair de costas, vendo finalmente passar por breves segundos o Mundo que um carpinteiro surdo lhe tinha negado.
Eram as vozes das janelas dos prédios que o menino ouvia, a contarem as suas histórias umas às outras, e a quem mais as quisesse ouvir. Quanto mais aberta estava, mais alto a janela falava, porque janelas são bocas.
Ouvia todas as histórias e guardava-as com todo o cuidado. Guardava-as nos bolsos, entre todas as coisas que os meninos são capazes de guardar nos bolsos, ou simplesmente levava-as para casa, embrulhadas nas mãos cobertas de terra ("limpa as mãos, Francisco... não te disse para não ires jogar para o meio da terra?").
Quando regressava a casa, ia direito para o quarto ("vai fazer os deveres, Francisco."), fechava a porta e chegava-se à janela. À sua própria janela, a que falava para ele, a janela do quarto do menino. Ajoelhava-se junto à moldura de Mundo e desembrulhava a história que tinha conseguido levar intacta até casa. Depois, as histórias começavam a contar-se à janela, que as ouvia com um sorriso.
A janela do quarto do menino era uma janela diferente: tinha sido montada ao contrário, muitos anos antes do Francisco entrar naquele quarto pela primeira vez. Aterrorizada, tinha chamado o carpinteiro até ficar sem voz, tentado explicar-lhe o equivoco. Mas o carpinteiro não ouvia vozes, muito menos janelas.
Todos os dias o menino levava uma história nova à sua janela que vivia de costas para o Mundo: as janelas de um último andar que não podiam ser mais diferentes (uma tinha vertigens e vivia sempre em pânico, a outra sonhava um dia poder voar); a janela de um rés-do-chão que por ter o trinco estragado havia anos não se podia calar e que por isso tinha começado a contar alto (já tinha acabado os números, as letras e contava agora em nomes de pessoas de um país enorme, muito para lá de todos os prédios da rua).
No final, a janela aplaudia, o menino agradecia, e a história contada pedia licença para se retirar. A maior parte das histórias voltaria um dia mais tarde, para fazer companhia à janela cega.
Mas um dia, tinha o menino saído, a janela começou a chorar a meio da conversa com a história da clarabóia que era solista no coro do telhado, exactamente no mesmo momento em que a mão da mãe do Francisco começou a jorrar sangue pelo passeio, criando pequenas poças vermelhas.
Uma pedra, nascida a voar não se sabia de onde, tinha sido atirada à janela. A janela ficou ilesa, mas o menino, que se encontrava a ruas e ruas de distância, espalhou-se pelo chão em mil pedaços de cristal.
Durante os anos seguintes, viria gente de longe para admirar o fenómeno do quarto virado para o Sol que estava sempre escuro, apesar da enorme janela completamente aberta.
Ou então não viria ninguém, e horas depois de serem varridos os últimos estilhaços de criança do passeio, a janela deixar-se-ia cair de costas, vendo finalmente passar por breves segundos o Mundo que um carpinteiro surdo lhe tinha negado.
Monday, November 17, 2008
fatalidade urbana
Impecavelmente vestido, dirigia-se para uma festa quando a tragédia aconteceu: atropelado por um carro em marcha-atrás, o vampiro não mais se levantaria. O condutor, visivelmente consternado, alegaria posteriormente à policia ter olhado pelo espelho no momento da manobra e não ter visto ninguém.
Thursday, November 13, 2008
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