Impecavelmente vestido, dirigia-se para uma festa quando a tragédia aconteceu: atropelado por um carro em marcha-atrás, o vampiro não mais se levantaria. O condutor, visivelmente consternado, alegaria posteriormente à policia ter olhado pelo espelho no momento da manobra e não ter visto ninguém.
Monday, November 17, 2008
Thursday, November 13, 2008
Friday, October 31, 2008
uma espera
Desde adolescente que tinha deixado o hábito de usar relógio. A partir do momento em que saia da casa que partilhava sozinho que o tempo de todos os seus gestos era marcado pelos outros: “pago o café quando o senhor que pediu para lhe desbloquearem a máquina receber o troco do maço de tabaco”, “atravesso a rua ao primeiro sinal verde depois da rapariga de verde entrar no autocarro que parou agora”.
Por vezes uma indecisão da parte da outra pessoa obrigava-o a demorar-se um pouco mais, mas nunca se impacientava. Uma espera era uma oportunidade para observar à sua volta, para descobrir algo novo no prédio da frente, um outro risco no carro vermelho estacionado ali perto.
Naquela tarde, tomava o café de sempre num passeio anónimo, escolhendo nos passos de alguém o momento de sair dali. Escolheu a rapariga que estava do outro lado da rua, tomando um café exactamente igual ao dele enquanto o olhava bem nos olhos. Quando deu por ele, o Sol começava já a descer no horizonte atrás dos prédios e os ponteiros dos relógios já tinham entontecido de voltas. Mas a decisão estava tomada. Ela olhava-o do outro passeio, parecendo tão vazia de impaciência quanto ele. Sorriam um para o outro, até ao momento em que o rapaz da mochila azul passou por trás dela e, sem querer, sem desconfiar por um segundo que fosse, fez com que duas vidas nascessem de novo.
Por vezes uma indecisão da parte da outra pessoa obrigava-o a demorar-se um pouco mais, mas nunca se impacientava. Uma espera era uma oportunidade para observar à sua volta, para descobrir algo novo no prédio da frente, um outro risco no carro vermelho estacionado ali perto.
Naquela tarde, tomava o café de sempre num passeio anónimo, escolhendo nos passos de alguém o momento de sair dali. Escolheu a rapariga que estava do outro lado da rua, tomando um café exactamente igual ao dele enquanto o olhava bem nos olhos. Quando deu por ele, o Sol começava já a descer no horizonte atrás dos prédios e os ponteiros dos relógios já tinham entontecido de voltas. Mas a decisão estava tomada. Ela olhava-o do outro passeio, parecendo tão vazia de impaciência quanto ele. Sorriam um para o outro, até ao momento em que o rapaz da mochila azul passou por trás dela e, sem querer, sem desconfiar por um segundo que fosse, fez com que duas vidas nascessem de novo.
Saturday, October 25, 2008
anónimo
Os tipos de letra foram inventados por um raptor que queria pedir um resgate por carta anónima mas não tinha revistas à mão.
Monday, October 20, 2008
sinal sonoro - ao terceiro ponto final serão reticências
Quando viu o fogo irromper pela porta, não hesitou: correu à parede, pegou no extintor, e com uma violência terapêutica esmagou o crânio do incêndio até o ver apagado.
Friday, October 17, 2008
Tuesday, October 14, 2008
o preço
Quando virei costas e voltei a olhar para a tela que levava na mão, não sei em verdade se o meu esgar foi de tristeza ou de surpresa: o meu Taj-Mahal em desenhos não passava agora de um rabisco ridiculo que os dias e a raiva rapidamente tratariam de destruir.
Thursday, October 2, 2008
o vazio
Se um dia acabarmos com os carros, o que é que vamos fazer às pontes gigantescas, às auto-estradas?

Monday, September 29, 2008
Wednesday, September 17, 2008
intempérie é sempre uma palavra escondida
A Luz morreu num fim-de-tarde de Verão.
O Mundo não caiu numa noite perpétua, as árvores não ficaram esculturas de gelo. Tudo ficou exactamente igual.
Levaram-na a enterrar numa cerimónia de silêncio. Para fazer soar as três salvas usaram-se espingardas mudas, e só estiveram presentes a família e alguns amigos chegados. O caixão era forrado a espelhos, e mesmo depois de tapado com terra, ninguém podia olhar para o chão mais de dez segundos sem que lhe doessem os olhos.
Muito mais tarde, era já Inverno, um par de mãos escavou um buraco na areia de uma praia.
O Mar rugia, o vento atravessava a carne e cortava-a de frio.
A 50 cms de profundidade, as mãos pararam com o toque de um calor perdido.
Era afinal ali, debaixo dos pés de todos, que os dias de Sol se escondiam das nuvens.
Thursday, September 11, 2008
eu não assinalo efemérides
Não.
Nunca saberia guardar efemérides. Elas falam demasiado de si, são demasiado imediatas.
Isto é outra coisa.
E agora calo-me devagar.
Tuesday, September 9, 2008
8
Ficaste presa no monstro, o monstro de milhões de mãos. Ele teve tempo suficiente, anos para te desfazer, em pedaços tão pequenos até deixares de existir.
Cada mão guardou o seu pedaço de ti, mas nenhuma delas sabe como o usar, nem para que serve.
Tal como há escalas de terramotos e de tempestades, também há uma para desaparecimentos. Os que derrubam paredes, os que fazem oscilar suavemente o candeeiro da sala, os que são praticamente imperceptíveis; os que se curam e os doentes terminais da invisibilidade. As pessoas podem desaparecer, num enorme e magnifico número de magia cruel.
É uma linha de terra que pode ser atravessada sem que os olhos toquem nos sonhos. No fim, mesmo no fim, derrete-se em bifurcações, tantas que nunca ninguém as poderá vasculhar todas.
Todas as crenças têm os seus gestos. É assim que os fiéis de algo se identificam entre si.
Que ainda acredites.
Põe a tua música.
A caneta acaba assim de dançar a sua última dança com os olhos postos em ti.
Foi esta que ficou por dançar.
Cada mão guardou o seu pedaço de ti, mas nenhuma delas sabe como o usar, nem para que serve.
Tal como há escalas de terramotos e de tempestades, também há uma para desaparecimentos. Os que derrubam paredes, os que fazem oscilar suavemente o candeeiro da sala, os que são praticamente imperceptíveis; os que se curam e os doentes terminais da invisibilidade. As pessoas podem desaparecer, num enorme e magnifico número de magia cruel.
É uma linha de terra que pode ser atravessada sem que os olhos toquem nos sonhos. No fim, mesmo no fim, derrete-se em bifurcações, tantas que nunca ninguém as poderá vasculhar todas.
Todas as crenças têm os seus gestos. É assim que os fiéis de algo se identificam entre si.
Que ainda acredites.
Põe a tua música.
A caneta acaba assim de dançar a sua última dança com os olhos postos em ti.
Foi esta que ficou por dançar.
"...inventa un buen final, un final que no nos deje asi..."
(inscrição na parede de um bar em Madrid)
Monday, September 8, 2008
apontamento no comboio
Continuo sem saber olhar pela janela como um adulto: inclino-me para a frente e encosto a cara ao vidro, entre as mãos. Confesso que deve ser tão deselegante como beber um litro de água de um só fôlego.
Tuesday, September 2, 2008
fazer música com...
...um computador dos anos 60.
IBM 1401 é o nome de um computador criado nos anos 60, que tinha uma falha de construção: uma fuga de radiação electromagnética fazia com que emitisse uma frequência que podia ser captada por rádios AM. Eventualmente, alguém descobriu que a partir deste defeito era possivel fazer o computador "cantar".
Anos depois, Johann Johannsson escolheu a voz do IBM 1401 como base para uma música.
O que é que isto tem a ver com pedreiras é algo que ainda me escapa.
Mas foi assim que um computador gigante se transformou em sapato.
...e com interruptores.
...e com interruptores.
Já estes senhores... são japoneses. E pronto.
Tuesday, August 26, 2008
meio decibel quadrado
Chovia-lhe ao ouvido.
Perguntou-lhe se também ouvia a chuva. Claro que não, qual chuva?
Chovia no espaço entre as vozes, um espaço que não tinha sitio, nem Tempo. Um espaço de existência sonora. Meio decibel quadrado.
Aí as palavras encharcavam-se de ruído e estática. Um enorme cheiro a terra húmida.
São sempre as afinidades da água que recebem e transformam para voltar a dar.
Fechou-se outra vez.
Foi assim que morreu afogado: em pé, no meio da rua, esmagado por uma chuva que só ouvia.
Friday, August 22, 2008
dress code no futebol
O lance de mão na bola caprichou no fato para o jantar de gala, mas mesmo assim foi casual.
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