Monday, June 9, 2008

O Braço

Num precipicio, numa terra perdida, há uma árvore gigantesca que paira no ar. Tem um ser que a segura, um bicho que não o é. O ser tem côr de leite, e forma de braço, um punho fechado sem dedos.
Na aldeia que sempre esteve junto do precipio conta-se que, há muitos anos, havia no topo uma gigantesca árvore que um dia decidiu atirar-se. Arrastou-se nos ramos velhos e quebradiços e caiu, como caem as coisas que se atiram.
Durante a queda, uma das sementes da velha árvore gritou de pânico, porque no entender dela não se morre assim, pequena mais do que pequena, semente.
E teria sido a própria terra a apiedar-se da semente, e a fazer crescer um pequeno dedo, apenas o suficiente para a semente se equilibrar.
Com a semente desligada da Terra, cabia ao Braço, então ainda Dedo (ou apenas Falange, Falanginha ou Falangeta) alimentá-la de tudo o que precisava.
Ao longo dos séculos cientistas estudaram o estranho Braço, hoje monstruoso que suporta uma árvore milenar de raizes no ar. Não se sabe o que come, o que bebe, como respira, se sintetiza, se fala. Mistério ainda maior é a árvore que cresce com as raízes a balançar no vazio.

Monday, June 2, 2008

Nostalgia

Apercebeu-se que, quanto mais crescia, mais pequenos lhe pareciam os prédios.
Por isso foi para Nova Iorque, ser criança outra vez.

Wednesday, May 28, 2008

Walk the ball (estimação)



Quero algo fresco, acabadinho de sair da cova.

Tuesday, May 27, 2008

Massive Attack - Angel



Alguém achou que um filme de 1932 sobre vampiros caia bem com a música.

Wednesday, May 21, 2008

os pequenos espaços pessoais fecharam à tarde

"...foi então que parou de chover, e os guarda-chuvas, que tinham sorrido abertamente durante toda a manhã, adormeceram em pé, abraçados em si mesmos."

Tuesday, May 20, 2008

o alfaiate

O alfaiate não faz fatos para ondas. Ele não confia em clientes que tenham de ser medidos de costas.

Monday, April 28, 2008

correntes

Aproximou-se dele, furiosa:
- Olhe o que fez! Despedaçou-me o coração!
- Desculpe, minha senhora... a senhora disse que era para assar...
- Guisar, seu incompetente! Guisar!
O talhante encolheu os ombros num gesto de lamento, olhando para o saco que a mulher depositou em cima do balcão:
- Bem, se a senhora quiser, eu terei todo o gosto em oferecer-lhe outro...- disse, como quem tenta remediar.
Ela encolheu os ombros por sua vez:
- Ainda não percebeu? Nunca vou arranjar um coração tão bom como este..
E dizendo isto, saiu.

Tuesday, April 22, 2008

conversa na Trindade

"(...)
- Criador, Criador... porque é que não criaste antes burros?.. - perguntei-lhe - Agora até há subsídios para isso...
Ele encolheu os ombros, e enquanto molhava o último bocado de pão no molho da segunda dose de conquilhas, disse como num lamento:

- Eu tentei... tenho o Senhor como testemunha... - mastigou o pão, quase choroso. - Deus sabe como tentei... (...)"


Thursday, April 17, 2008

um suave despertar

Tinha tido um suave despertar, tomado o pequeno-almoço tranquilamente, visto da janela os primeiros raios de Sol a despontar.
Passou o limiar da porta e entrou na rua. Olhou para o passeio do outro lado e pensou claramente "sempre que olho para uma palmeira, vejo um ananás gigante".
Foi nesse momento que lhe bateu uma enorme sensação de vazio. Não se lembrava de ter sonhado, não tivera um daqueles sonhos que ficam pendentes pelo toque do despertador; tinha tomado o mesmo pequeno-almoço de sempre, que tomava há anos sempre sem problemas, por isso também não seria daí; tinha consigo tudo aquilo que precisava para o resto do dia...
Foi então que se lembrou do homem que tinha deixado a dormir em cima da cama. Esquecera-se dele. Que estupidez, ia ter de voltar atrás...
Seria o seu primeiro atraso desde que começara a trabalhar. Nunca antes o Pijama se tinha atrasado, e logo por um motivo tão parvo...
"Onde é que eu tinha a cabeça?" pensou, ao correr de volta a casa.

Tuesday, April 15, 2008

"Os laços" - conto prático para a compra online

Era um homem que fazia todas as suas compras online: música, comida, roupa, para tudo tinha um site especifico, melhor do que os generalistas.
Eventualmente encontrou um site que vendia emoções: tristeza, alegria, raiva, compaixão, de tudo havia naquele site. Pelo preço certo, bastava o número do cartão de crédito e o utilizador recebia a emoção desejada na quantidade pretendida.
Desse site passou para outro: um que lhe permitia comprar amigos. Fez a sua primeira encomenda numa tarde de chuva.
Ao fim de alguns dias cancelou a encomenda, alegando que não tinha chegado a haver entrega.