Wednesday, May 28, 2008
Tuesday, May 27, 2008
Wednesday, May 21, 2008
os pequenos espaços pessoais fecharam à tarde
"...foi então que parou de chover, e os guarda-chuvas, que tinham sorrido abertamente durante toda a manhã, adormeceram em pé, abraçados em si mesmos."
Tuesday, May 20, 2008
o alfaiate
O alfaiate não faz fatos para ondas. Ele não confia em clientes que tenham de ser medidos de costas.
Monday, April 28, 2008
correntes
Aproximou-se dele, furiosa:
- Olhe o que fez! Despedaçou-me o coração!
- Desculpe, minha senhora... a senhora disse que era para assar...
- Guisar, seu incompetente! Guisar!
O talhante encolheu os ombros num gesto de lamento, olhando para o saco que a mulher depositou em cima do balcão:
- Bem, se a senhora quiser, eu terei todo o gosto em oferecer-lhe outro...- disse, como quem tenta remediar.
Ela encolheu os ombros por sua vez:
- Ainda não percebeu? Nunca vou arranjar um coração tão bom como este..
E dizendo isto, saiu.
- Olhe o que fez! Despedaçou-me o coração!
- Desculpe, minha senhora... a senhora disse que era para assar...
- Guisar, seu incompetente! Guisar!
O talhante encolheu os ombros num gesto de lamento, olhando para o saco que a mulher depositou em cima do balcão:
- Bem, se a senhora quiser, eu terei todo o gosto em oferecer-lhe outro...- disse, como quem tenta remediar.
Ela encolheu os ombros por sua vez:
- Ainda não percebeu? Nunca vou arranjar um coração tão bom como este..
E dizendo isto, saiu.
Tuesday, April 22, 2008
conversa na Trindade
- Criador, Criador... porque é que não criaste antes burros?.. - perguntei-lhe - Agora até há subsídios para isso...
Ele encolheu os ombros, e enquanto molhava o último bocado de pão no molho da segunda dose de conquilhas, disse como num lamento:
- Eu tentei... tenho o Senhor como testemunha... - mastigou o pão, quase choroso. - Deus sabe como tentei... (...)"
Thursday, April 17, 2008
um suave despertar
Tinha tido um suave despertar, tomado o pequeno-almoço tranquilamente, visto da janela os primeiros raios de Sol a despontar.
Passou o limiar da porta e entrou na rua. Olhou para o passeio do outro lado e pensou claramente "sempre que olho para uma palmeira, vejo um ananás gigante".
Foi nesse momento que lhe bateu uma enorme sensação de vazio. Não se lembrava de ter sonhado, não tivera um daqueles sonhos que ficam pendentes pelo toque do despertador; tinha tomado o mesmo pequeno-almoço de sempre, que tomava há anos sempre sem problemas, por isso também não seria daí; tinha consigo tudo aquilo que precisava para o resto do dia...
Foi então que se lembrou do homem que tinha deixado a dormir em cima da cama. Esquecera-se dele. Que estupidez, ia ter de voltar atrás...
Seria o seu primeiro atraso desde que começara a trabalhar. Nunca antes o Pijama se tinha atrasado, e logo por um motivo tão parvo...
"Onde é que eu tinha a cabeça?" pensou, ao correr de volta a casa.
Passou o limiar da porta e entrou na rua. Olhou para o passeio do outro lado e pensou claramente "sempre que olho para uma palmeira, vejo um ananás gigante".
Foi nesse momento que lhe bateu uma enorme sensação de vazio. Não se lembrava de ter sonhado, não tivera um daqueles sonhos que ficam pendentes pelo toque do despertador; tinha tomado o mesmo pequeno-almoço de sempre, que tomava há anos sempre sem problemas, por isso também não seria daí; tinha consigo tudo aquilo que precisava para o resto do dia...
Foi então que se lembrou do homem que tinha deixado a dormir em cima da cama. Esquecera-se dele. Que estupidez, ia ter de voltar atrás...
Seria o seu primeiro atraso desde que começara a trabalhar. Nunca antes o Pijama se tinha atrasado, e logo por um motivo tão parvo...
"Onde é que eu tinha a cabeça?" pensou, ao correr de volta a casa.
Tuesday, April 15, 2008
"Os laços" - conto prático para a compra online
Era um homem que fazia todas as suas compras online: música, comida, roupa, para tudo tinha um site especifico, melhor do que os generalistas.
Eventualmente encontrou um site que vendia emoções: tristeza, alegria, raiva, compaixão, de tudo havia naquele site. Pelo preço certo, bastava o número do cartão de crédito e o utilizador recebia a emoção desejada na quantidade pretendida.
Desse site passou para outro: um que lhe permitia comprar amigos. Fez a sua primeira encomenda numa tarde de chuva.
Ao fim de alguns dias cancelou a encomenda, alegando que não tinha chegado a haver entrega.
Eventualmente encontrou um site que vendia emoções: tristeza, alegria, raiva, compaixão, de tudo havia naquele site. Pelo preço certo, bastava o número do cartão de crédito e o utilizador recebia a emoção desejada na quantidade pretendida.
Desse site passou para outro: um que lhe permitia comprar amigos. Fez a sua primeira encomenda numa tarde de chuva.
Ao fim de alguns dias cancelou a encomenda, alegando que não tinha chegado a haver entrega.
o hipnotizador
Quando ligaram ao hipnotizador a dizer que no dia seguinte começaria a trabalhar num call-center, ele ficou deveras contente. Pensou na sua imensa capacidade para controlar as mentes por telefone, e como seria fácil conquistar o Mundo a partir do seu novo trabalho (os hipnotizadores são, regra geral, gente pouco democrática).
Assim, os dias de trabalho passaram-se entre "com quem tenho o prazer de estar a falar?..." e "escuta bem o som da minha voz..."; "receberá um sms de confirmação da mudança de tarifário" e "ao meu sinal, estarás sob o meu poder".
Tão entretido estava com controlar as mentes dos clientes que nem deu grande importância à repetição constante de todos os procedimentos, vezes e vezes sem conta.
Por isso, quando deu por ele, já era demasiado tarde. Era uma galinha.
Assim, os dias de trabalho passaram-se entre "com quem tenho o prazer de estar a falar?..." e "escuta bem o som da minha voz..."; "receberá um sms de confirmação da mudança de tarifário" e "ao meu sinal, estarás sob o meu poder".
Tão entretido estava com controlar as mentes dos clientes que nem deu grande importância à repetição constante de todos os procedimentos, vezes e vezes sem conta.
Por isso, quando deu por ele, já era demasiado tarde. Era uma galinha.
à solta
Durante o dia, a minha imaginação anda sempre à solta.
Aqui há tempos, encontraram-na na rua, pensaram que estava abandonada e meteram-na na carrinha.
Quiseram abatê-la, mas não abateram.
Aqui há tempos, encontraram-na na rua, pensaram que estava abandonada e meteram-na na carrinha.
Quiseram abatê-la, mas não abateram.
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