Thursday, March 6, 2008

traição ou o arranjo


-...e então eu disse-lhe que não, que estava enganado, que não tinha nada a ver, e que... - deteve-se. - Olha, tu estás a ouvir?
Encolhi os ombros. Não, não estava a ouvir.
- O que é que tens? - perguntou.
- Tira os óculos, se fazes favor.
- Porquê?... - pareceu hesitar. - Vais-me dizer que és daqueles que não consegue falar com uma pessoa de óculos escuros?
- Tira os óculos. Quero só ver uma coisa.
Eram enormes, armação em plástico branco, daqueles que foram novidade ao mesmo tempo que a mini-saia e que por qualquer motivo decidiram voltar para me atormentar. Vi-a pousá-los na mesa e olhei-a. Era exactamente como eu pensava: da cana do nariz para cima, da testa para baixo, praticamente de um lado ao outro da cara, havia um enorme vazio. Mais do que enorme, um vazio total. Conseguia ver-lhe de frente o cabelo que taparia a parte de trás da cabeça.
- Posso voltar a pô-los?.. - notava-se-lhe na voz o orgulho ferido.
- Podes. - tentei disfarçar um riso de satisfação tipo "ah, eu sabia...". - Então e isso foi porquê, conta lá?
- Pois, tive um pequeno problema com a cara e tive de a levar à oficina. - tinha retomado a pose da segurança despreocupada. - Está pronta na sexta.
- Ah... é que eu pensava que as pessoas quando usavam óculos desses era porque tinham deixado a cara em casa, num grande copo com água, como as avós faziam com as dentaduras...
Encolheu os ombros.
- Não sejas parvo. Mas olha, como eu estava a dizer, não era nada do que ele pensava e...

Tuesday, March 4, 2008

crime

Não.
Porque todos os vizinhos o conheciam bem. Nunca o tinham visto tocar num copo sequer, nunca por uma vez o ouviram trautear uma modinha. Há anos que era um homem rigido, mas um bom homem.
Nada.
Desde que a mulher tinha ficado desfigurada, a cara feita em caramelo depois de um acidente doméstico com um fogão, ele apenas sorría por simpatia, por delicadeza, para não desiludir quem lhe procurava animar o rosto duro, os traços tristes.
Ninguém.
Ninguém acreditou na história da vizinha de cima, que ele vinha bêbedo, a cantar a plenos pulmões pela rua fora, noite dentro. Essa sim, era uma pessoa má, a vizinha, sempre a gozar com eles, a dizer que pessoas assim deviam vir em pacotes de 6/8 gramas, ou em colheres minúsculas. Tinha sido ela, sempre a dizer que o café sabia mal sem eles, mas que a sociedade ficava bem melhor.
Não.
Não havia lugar a acidente. Era crime, era maldade, era coisa de assassinos.
Porque só uma assassina despejaria um balde de água na cabeça do doce Homem de Açúcar.

banho

Monday, March 3, 2008

consideração

Nenhum homem habita realmente em sua casa até andar pela primeira vez com os pés em cima dos sofás.
"Estou a chorar um desgosto de Amor,
ele estava vivo quando o enterrei."

Friday, February 29, 2008

Se eu fosse...

Caro Pedro,

É parvo cantares o "Se eu fosse um dia o teu olhar", tu, que não tiras os óculos escuros desde a segunda edição do "Viagens".


(no seguimento de "Se eu fosse dar banho ao cão", em http://fait-d-i-v-e-r-s.blogspot.com/)

Thursday, February 21, 2008

"…vou deixar bem claro que sou o maior, e que sem mim ninguém pode viver.
Depois logo se vê… calculo que hão-de voltar para suas casas a pensar nisso.
Tudo correrá bem até encontrarem na rua alguém que vive sem mim. Encolherá os ombros e dirá duas coisas: que sim, vive; e sim, sem mim.

Tudo correrá bem até aí..."

Monday, February 18, 2008

pululam

Vê se cresces,
Vê se cresces, por aí, pelos cantos
como os cogumelos.
É isso,
vê se cresces.

Wednesday, February 6, 2008

Se um cross-dresser se vestir de mulher no Carnaval, está mascarado?

Wednesday, January 30, 2008

sangue

Havia já sete dias que pelas fontes e ribeiras das aldeias não corria uma gota de água. Era Inverno mas a água que chovia atravessava o chão e penetrava na terra sem se deter por um segundo. Mesmo quando as pessoas saíam à rua e punham as mãos em concha para apanhar as gotas caídas do céu estas desviavam-se com sons que pareciam pequenos risos trocistas.

Perante a gravidade da situação reuniram-se as aldeias e escolheu-se de entre todos os homens um apenas. Horas depois, no momento em que o escolhido saía da sua aldeia, os restantes habitantes começaram a retirar todos os espelhos que tinham em casa ou havia nas ruas.

Quando, no dia seguinte, conseguiu visar perfeitamente o alvo e prender firmemente a espingarda com o corpo, o homem pensou qualquer coisa que não conseguiu exactamente compreender o que era. Foi apenas uma fracção de segundo em que o seu pensamento andou longe dele.

Imediatamente a seguir disparou.

Até ao fim da vida haveria de ouvir perguntarem-lhe como tinha conseguido apanhar de costas uma montanha, que por natureza está sempre de frente para toda a gente. A única explicação que arranjou nunca convenceu nenhum dos então gratos, mas cépticos, aldeões:
- O meu pensamento fugiu-me por um momento... - repetia hesitante - eu acho que foi ao outro lado chamá-la para que não me visse a cara...

O tiro não foi certeiro, mas deixou moribunda a montanha. Estava cumprida a ordem do Conselho. O homem voltou então para a sua aldeia. As pessoas reuniam-se em redor das fontes e do pequeno curso de água que tinha voltado a correr, para verem os seus rostos e celebrar o regresso do espelho que nunca descansa. Uma velha chorava e percorria a sua própria cara com as mãos, "a decorar com os dedos o que os olhos não voltarão a ver", sussurrava nas pausas do pranto.

Três dias passaram até que a aldeia compreendesse as palavras da mulher. A água tinha voltado a evitar as aldeias. O céu carregado de nuvens escuras recusava-se a chover.

Das outras aldeias vieram emissários que exigiam que o homem fosse mandado de volta para a montanha e resolvesse o que estava mal. O conselho não foi sequer reunido. O homem não foi sequer chamado. Ia já na quinta hora do seu caminho.

Foi com o cair da noite que chegou até junto da montanha. Encontrou-a deitada,ainda com a cabeça cheia de neve, olhando de lado como quem tenta pegar no sono mas tem um pensamento que teima não largar.
Ele, homem, tinha decidido que a sua primeira pergunta seria sobre a dôr, se lhe doía o ferimento ou não; que a segunda sobre o porquê de não haver água nas aldeias; e a terceira seria se a montanha lhe perdoava tê-la apanhado de costas.
Sentou-se e olhou-a.

Conversaram durante alguns minutos. O homem ignorou totalmente as perguntas que tinha planeado. A montanha tinha uma voz suave, redonda de veludo, mas com uma ligeira roquidão de pedra. A conversa terminou quando a voz, cansada, se extinguiu.

"O teu tiro tirou-me água durante mais três dias. Três dias para lá daquilo que eu tinha prometido a mim mesma. Desde sempre sangrei água para o vale, à vista de todos. Agora tenho finalmente a vergonha que sempre quis. Que nunca compreendas como é arrogante o acto de sangrar à vista de todos."

O homem deixou-se ficar a velar o cadáver da montanha durante toda a noite, enterrando-a aos primeiros raios de Sol. Depois, lentamente, iniciou o regresso à aldeia.