Monday, January 14, 2008

guarda.

Diz-se que, há muito tempo atrás, havia na América do Sul uma tribo índia que usava papagaios coloridos para guardar as vozes daqueles que morriam.
Séculos depois inventaram-se os gravadores, os gira-discos, as cassetes.

É claro que o Mundo está a morrer.

Monday, January 7, 2008


No seu leito de Morte, Kandinsky confessou ter perdido rapidamente o prazer em jogar ao Stop:
"- Estavam-me sempre a pedir para fazer as tabelas de toda a gente. E discutir se Andorra contava ou não para países com A também perdeu a piada num instante."

Uma causa.

Cenário: um parque de estacionamento subterrâneo na Lisboa do século XIX. Uma charrete de dois cavalos faz um estacionamento em baliza. Mal se detém, um dos cavalos explode. Imediatamente a seguir explode o outro. Todos os cavalos no parque explodem.

Voz OFF:
"A Combustão Espotânea Equestre sempre foi uma realidade.
Junte-se à campanha pelo fim da proibição de carros a gás em parques subterrâneos."
- Queria pagar o café.
- Secenta centimos, se faz favor.
- Perdão?
- Sessenta cêntimos.
- Com certeza.

Thursday, January 3, 2008

de palavras (o boato)

Nesse momento ela chamou-o. Estavam só os dois, mas mesmo assim chamou-o. Sem voz, a mão dele na dela.
Atravessaram o limiar da porta e entraram no quarto. Ele sabia porque estavam ali, mas ela sabia-o ainda melhor.
Era segredo.
Ela sentou-se na cama, as pernas cruzadas, as mãos nos tornozelos a olhar para ele.
- Senta-te. – disse-lhe meigamente.
Sem saber porquê, foi com timidez que cumpriu a ordem. Sentia-se ultrapassado, quase subjugado. Os pés no chão, o corpo de lado. Ela sorriu paciente. Ele sabia que transbordava nervosismo.
Ela sussurrou-lhe um beijo à boca. Com um sorriso perguntou-lhe, com a mesma doçura de sempre:
- Tu sabes porque estamos aqui?
- Sei sim. – respondeu em voz trémula.
Ela não desfez o sorriso, mas foi com firmeza terna que lhe disse:
- Não, não sabes.
Depois, devagar, explicou-lhe. Explicou-lhe o segredo que se esconde por detrás da maior das mentiras. A enorme conspiração que se faz de gestos nas costas de quem não sabe. Um toque no nariz, um encolher de ombros especial, todos sinais discretos que serviam simplesmente para dizer “eu sou dos que sabe”.
Naquela noite, naquela cama, ela explicou-lhe o que sabia, e o que soube desde que lhe tinha feito um sinal com o anelar e o polegar ao qual ele não respondeu. A maior das sociedades secretas, o segredo mais contado do mundo que era afinal uma enorme mentira.
- Eu sempre desconfiei que fosse realmente outra coisa. – disse-lhe ele no final.
- Eu sei. Algumas das pessoas que não sabem aceitam simplesmente o que lhes apresentam; outras, raras, preferem desconfiar. Acho que foi por isso que decidi contar-to a ti.
- Sou o primeiro a quem contas? – perguntou-lhe a medo.
Ela devolveu-lhe um olhar de infinita doçura:
- Um segredo revelado é como um corpo sem vida. E eu sou uma romântica, só mato por Amor.

Um assassino é um sádico que não sabe brincar, porque estraga sempre os brinquedos e detesta que digam que a culpa é dele quando rebenta a bolha.

Tuesday, December 25, 2007

Ceia de Natal

"Faz-me um favor: traz os sonhos que ficaram em cima da mesa da cozinha."

Monday, December 24, 2007

O obscurantismo não é uma cor.

Thursday, December 20, 2007

Acordei durante a noite com um ruído quase imperceptível. Deixei-me ficar quieto e calado até que o ruído se repetiu. Era uma fungadela. Assim mesmo. Era acompanhada pelo som de um ininterrupto lamento, um imparável pranto sussurrado.
Afastei os lençóis. Lá estavam eles. Encolhidos, os mindínhos dos meus pés choravam, cada um para seu lado, mas com gestos que só podiam indicar uma mesma mágoa.
Os meus mindínhos amam-se.

"Fracturas múltiplas, lesões internas que resultaram em morte."
Perante o corpo deitado nas rochas, com os membros desfeitos como se tivessem numerosas articulações, a causa parecia clara: suicidio.

A tese do acidente viria no entanto a ganhar consistência quando se procedeu ao levantamento dos haveres pessoais da vitima. No bolso alguém encontrou um papel com uma mensagem simples: "caí".

Foi um jovem inspector que se apercebeu do facto que levaria à comprovação do homicidio: como poderia um homem morto na sequência de uma queda descrever as circunstâncias da sua própria morte no pretérito? Teria sido o verdadeiro culpado a escrever e a deixar o pequeno bilhete no bolso da vitima; ou pior: teria, com macabra frieza, coagido a vitima a escrever ela mesma o bilhete para depois a assassinar.

No dia seguinte alguém era preso.
Ironia ou uma última nota de humor nunca foram hipóteses.