Monday, January 7, 2008

Uma causa.

Cenário: um parque de estacionamento subterrâneo na Lisboa do século XIX. Uma charrete de dois cavalos faz um estacionamento em baliza. Mal se detém, um dos cavalos explode. Imediatamente a seguir explode o outro. Todos os cavalos no parque explodem.

Voz OFF:
"A Combustão Espotânea Equestre sempre foi uma realidade.
Junte-se à campanha pelo fim da proibição de carros a gás em parques subterrâneos."
- Queria pagar o café.
- Secenta centimos, se faz favor.
- Perdão?
- Sessenta cêntimos.
- Com certeza.

Thursday, January 3, 2008

de palavras (o boato)

Nesse momento ela chamou-o. Estavam só os dois, mas mesmo assim chamou-o. Sem voz, a mão dele na dela.
Atravessaram o limiar da porta e entraram no quarto. Ele sabia porque estavam ali, mas ela sabia-o ainda melhor.
Era segredo.
Ela sentou-se na cama, as pernas cruzadas, as mãos nos tornozelos a olhar para ele.
- Senta-te. – disse-lhe meigamente.
Sem saber porquê, foi com timidez que cumpriu a ordem. Sentia-se ultrapassado, quase subjugado. Os pés no chão, o corpo de lado. Ela sorriu paciente. Ele sabia que transbordava nervosismo.
Ela sussurrou-lhe um beijo à boca. Com um sorriso perguntou-lhe, com a mesma doçura de sempre:
- Tu sabes porque estamos aqui?
- Sei sim. – respondeu em voz trémula.
Ela não desfez o sorriso, mas foi com firmeza terna que lhe disse:
- Não, não sabes.
Depois, devagar, explicou-lhe. Explicou-lhe o segredo que se esconde por detrás da maior das mentiras. A enorme conspiração que se faz de gestos nas costas de quem não sabe. Um toque no nariz, um encolher de ombros especial, todos sinais discretos que serviam simplesmente para dizer “eu sou dos que sabe”.
Naquela noite, naquela cama, ela explicou-lhe o que sabia, e o que soube desde que lhe tinha feito um sinal com o anelar e o polegar ao qual ele não respondeu. A maior das sociedades secretas, o segredo mais contado do mundo que era afinal uma enorme mentira.
- Eu sempre desconfiei que fosse realmente outra coisa. – disse-lhe ele no final.
- Eu sei. Algumas das pessoas que não sabem aceitam simplesmente o que lhes apresentam; outras, raras, preferem desconfiar. Acho que foi por isso que decidi contar-to a ti.
- Sou o primeiro a quem contas? – perguntou-lhe a medo.
Ela devolveu-lhe um olhar de infinita doçura:
- Um segredo revelado é como um corpo sem vida. E eu sou uma romântica, só mato por Amor.

Um assassino é um sádico que não sabe brincar, porque estraga sempre os brinquedos e detesta que digam que a culpa é dele quando rebenta a bolha.

Tuesday, December 25, 2007

Ceia de Natal

"Faz-me um favor: traz os sonhos que ficaram em cima da mesa da cozinha."

Monday, December 24, 2007

O obscurantismo não é uma cor.

Thursday, December 20, 2007

Acordei durante a noite com um ruído quase imperceptível. Deixei-me ficar quieto e calado até que o ruído se repetiu. Era uma fungadela. Assim mesmo. Era acompanhada pelo som de um ininterrupto lamento, um imparável pranto sussurrado.
Afastei os lençóis. Lá estavam eles. Encolhidos, os mindínhos dos meus pés choravam, cada um para seu lado, mas com gestos que só podiam indicar uma mesma mágoa.
Os meus mindínhos amam-se.

"Fracturas múltiplas, lesões internas que resultaram em morte."
Perante o corpo deitado nas rochas, com os membros desfeitos como se tivessem numerosas articulações, a causa parecia clara: suicidio.

A tese do acidente viria no entanto a ganhar consistência quando se procedeu ao levantamento dos haveres pessoais da vitima. No bolso alguém encontrou um papel com uma mensagem simples: "caí".

Foi um jovem inspector que se apercebeu do facto que levaria à comprovação do homicidio: como poderia um homem morto na sequência de uma queda descrever as circunstâncias da sua própria morte no pretérito? Teria sido o verdadeiro culpado a escrever e a deixar o pequeno bilhete no bolso da vitima; ou pior: teria, com macabra frieza, coagido a vitima a escrever ela mesma o bilhete para depois a assassinar.

No dia seguinte alguém era preso.
Ironia ou uma última nota de humor nunca foram hipóteses.

Pequenos excertos de velhas em cafés.

As duas mesas serviam para cinco pessoas. Nenhuma delas estava sentada à cabeceira mas havia uma harmoniosa distribuição do espaço. Talvez por estarem na corrente de ar de uma tarde que estava fria.
A média de idades à mesa rondava os 65/70 anos. Ninguém parecia usar a sua côr natural de cabelo.
Eles liam "A Bola" e o "24 horas", absolutamente silenciosos e imóveis.
Elas conversavam entre si, tão alheias a tudo o resto quanto eles.

Dizia uma delas que agora a calista lhe tinha descoberto uma coisa qualquer nos dedos. Outra respondeu muito depressa e de forma segura:
- Isso são micoses!
- Pois são micoses, pois - confirmou a primeira. - A minha calista diz que passa. Põe-me os dedos em parafina e diz que vai passar.
A outra replicou prontamente:
- A mim, a médica disse para eu pôr creme gordo.
- Deve ser Barral, com certeza.
- É Barral, é. - responde com jeitos de "Claro que é Chanel".
Nisto a silenciosa decide intervir com uma altissima voz com um timbre cheio de idade:
- Mas isso é para quê, mesmo?
- Prás micoses, Maria!
- Para o quê?.. - volta a perguntar. Percebo que finalmente descobri uma entidade essencial nos grupos de velhas: a surda.
- PRÁS MICOSES MARIA!! A TERESA TÁ COM MICOSES NOS DEDOS DOS PÉS!!
- Ah...

Nem "A Bola" nem o "24 horas" se mexeram. A conversa seguiu.
A sociedade portuguesa está-se a tornar incrivelmente despudorada. As velhas derrubaram as micoses, o último bastião da intimidade.
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Uma senhora conversa ao balcão com o dono do café: "vai chover, não vai", "como é que está o seu mais novo, o meu casou-se"...
Sentada a uma mesa junto à enorme janela gradeada pelo lado de fora, uma outra mulher toma o seu café da tarde. De súbito detem-se e observa a que está a conversar ao balcão. É nitido que faz uso de toda a educação assimilada ao longo das suas várias décadas quando pergunta num tom cortês mas suave:
- A senhora desculpe eu interromper... - começa pausadamente. - Mas a senhora não é de Évora?
A outra retribui-lhe a delicadeza com um meio-sorriso irrepreensivel:
- Sou sim. Mas já saí de lá tinha eu quinze anos, já lá vão mais de quarenta anos - permite-se a inconfidência com a leveza de quem convenientemente se esquece de como se fazem contas.
- Pois. Agora estava a olhar para a sua cara e estava a pensar "parece-me que conheço aquela cara de algum lado". - prossegue a senhora sentada à mesa. - Isso foi mais ou menos quando eu também saí de lá.
A conversa cai num silêncio simultâneo. Ao balcão reata-se a conversa com o patrão enquanto à mesa se retoma a leitura do jornal.
Duas pessoas nascidas no mesmo sitio, que se entreolharam durante quarenta anos, demoraram apenas 20 segundos para descobrir que não tinham absolutamente nada em comum.

E fizeram-no de ânimo leve.

Tuesday, December 18, 2007

Romanização

Sic transit

Glória Mundi