Tuesday, December 11, 2007

Perfume II









Em resposta a "Perfume" em http://www.kitcowboy.blogspot.com/

Wednesday, December 5, 2007

A viagem

Ela chamava-se Iris, dele não me lembro do nome.
Iris era muito bonita, tinha um verde que pousava em tudo o que a atraía. Estava sempre a observar, parecia ter curiosidade por tudo e estava permanentemente atenta ao que se passava à sua volta.
Ele era mais escuro, de um negro profundo. Falava mais do que ela, mas tinha menos calor no que dizia. Era no entanto de trato fácil. Quando falava olhava directamente para o interlocutor com um olhar que trespassava. Parecia estar sempre a colocar silenciosamente uma mesma questão esperando que a adivinhássemos.
Durante o tempo que estive com eles, ninguém tentou adivinhar que pergunta seria. Eu também não.
Iris e Ele formavam um casal um pouco estranho, na verdade: cada um sempre nos seus longos silêncios, trocando um olhar significativamente sorridente de vez em quando. Tinham uma curiosidade devoradora por cada rua pela qual passavamos. Nenhum deles conhecia a cidade.
Mostrei-lhes todos os pontos turisticos habituais, os monumentos, os jardins. podia ter-lhes mostrado mais, mas não aguentava os constantes olhares de toda a gente à nossa volta.
Mantive sempre a calma. Da primeira vez que me preparava para gritar com uma mulherzinha que ria e apontava para eles parei para pensar: a verdade é que eu também nunca tinha visto.
Iris sorria com o seu verde e dizia-me:
- Não te rales... eles olham porque nunca antes tinham usado os deles.

Iris e Ele eram ambos globos óculares. Olhos.

Nunca os vi piscar, a nenhum deles. Mas de cada vez que passávamos por uma fonte tinhamos de parar para que se refrescassem um pouco.
Ele chamava a Iris "minha córneazinha"; Iris tratava-o simplesmente pelo nome, o mesmo de que agora não me lembro.

Quando mais tarde nos despedimos, e eles seguiram viagem, agradeceram e enalteceram o meu desempenho como cícerone. Tinham aprendido muito sobre o país, as pessoas, a história, tudo o que era identidade cultural. Agradeci-lhes e fiquei a ver o comboio partir, levando-os para outras paragens, provavelmente com a janela do compartimento fechada, porque nenhum deles gostava de vento.

Lembrei-me para comigo do que tinha aprendido com eles: um idioma diferente, uma forma nova de observar o mundo. Mas tinha sido ao vê-los à mesa na nossa primeira refeição que mais sorrí durante esses dias. Eu que sempre tinha sido um céptico em relação a isso, pude ver que afinal é mesmo verdade:

Os olhos também comem.

Sunday, December 2, 2007

Em negação

Ele foi Usado como Novo
Mas afinal já não era novo,
Era usado.
Eventualmente avariou-se.

Afta

Saturday, December 1, 2007

Água suja

3. Amargo

A porta da sala está sempre fechada, como as restantes portas da casa. Lá dentro, todos os móveis estão cobertos por enormes lençóis brancos que os protegem do pó e dos olhares de ninguém. É também a única divisão que recebe a luz do Sol.
É no quarto que passa mais tempo: uma cama, uma pequena secretária, um baú escuro.
O resto da casa é um enorme corredor desigual, com portas de madeira num dos lados apenas.
É uma casa feita de arrecadações.
Nos raros dias em que recebe uma pessoa, tira os lençóis dos móveis e estes mostram-se no esplendor imaculado das coisas escondidas que ninguém usa. Respiram fundo e aguçam o ouvido, ansiando pelo fim do silêncio entre as paredes sempre caladas.
Entre as duas pessoas trocam-se palavras, histórias. Ele tem um fascínio pelas histórias dos outros, coloca os cotovelos na mesa, deixa os dedos das mãos abraçarem-se, apoia o queixo nos polegares e fica assim a ouvir.
A um jantar segue-se outro, e outro. As histórias começam a repetir-se até o seu silêncio se tornar pesado, contagiante, inevitável para o convidado.
O dia chega em que os móveis são novamente cobertos com o lençol branco e começam a sussurrar todas as histórias que ouviram para delas não se esquecerem durante o silêncio. Nunca choram quando sussurrar não resulta.
Às vezes ele interroga-se sobre o seu enorme corredor. Constrói-o na sua semi-consciência, talvez com os olhos brilhantes, ou revirados ou simplesmente fechados. Sempre no dia seguinte ao último jantar a dois. Dois metros e uma porta de cada vez.
De tempos em tempos, abre uma porta. Encontra uma pessoa com várias caras mas sempre um rosto inexpressivo, indiferente. É um corpo de pé, de olhos fixos na porta. Ambos trocam sorrisos e recordam os jantares que partilharam.
É ele que fala, quem ouve sorrí e deixa os dedos das mãos abraçarem-se.

Tuesday, November 27, 2007

Depressa,


antes que seja tarde demais.

A borboleta bíblica.

Judas não se enforcou numa figueira por arrependimento ou tristeza...
Judas enforcou-se pois sonhava reencarnar num bonito figo.

Monday, November 26, 2007








Há já quatro dias que a luz da cozinha está a tentar comunicar...

Wednesday, November 21, 2007

Raiva

Claro que me lembro.

Sentia-me um bocado indisposto nesse dia: tonturas, frases soltas, silêncios enormes.
Calhou ser à tua frente que a coisa atingiu o auge.
Disseste-me uma banalidade qualquer, daquelas às quais eu normalmente encolho os ombros e respondo com um desprezo ácido que à primeira vista parece uma ignorância desleixada, ou pura e simplesmente a denúncia de uma personalidade passiva e pouco dada a tomadas de posição.

Por mim teria sido essa a resposta que levarias.

Mal abri a boca para soltar a costumeira exclamação insipida ou o murmúrio de solidariedade de quem realmente não se quer comprometer, senti algo diferente em mim.
Algo me trepava e corroía as entranhas, uma qualquer coisa sem sabor.

A espuma saiu-me da boca em jorros espessos. Por um segundo achei que bastaria um lencinho qualquer, mas desisti logo da ideia. Longe de me preencher apenas a boca e o queixo, escorreu e alastrou-se até aos braços.

Senti-a penetrar-me nos membros através da pele, da carne, e agarrar-me os ossos. Nesse momento a torrente parou, e lembro-me que o último bocado tinha um travo a livros velhos daqueles que se guardam, esquecem e se ignoram nas prateleiras durante muitos anos.

Não me lembro que cara fizeste quando os meus braços se mexeram sem eu os mandar. Apesar de não a ver, sei que eu não fiz cara nenhuma.
Agarrei-te o pescoço e comecei a apertar. Não te li os olhos, não te senti debateres-te de pânico, não te ouvi um grito sequer. Talvez um vago gemido qualquer de piedade.

Ou então sou só eu a romantizar a coisa.

Senti o teu pescoço emagrecer entre as palmas das minhas mãos. Os meus dedos riam um riso que eu nunca antes lhes tinha ouvido.
Vi-te ficar de todas as côres e aí sim, fiquei pasmado, porque não sabia que uma cara humana podia passar por tantas côres. Vi que os teus olhos tentavam sair da tua cara, como os ratos fogem de uma mina antes de um terramoto, ou pessoas saltam de um prédio condenado.

Os meus dedos ouviram o som de algo a partir-se entre eles. A tua boca também emitiu qualquer coisa, mas não consigo definir o que foi ao certo.

Inerte o teu pescoço fica mais pesado.

Rodei a mão direita, até ficar lado a lado com a esquerda.
Voltei a apertar. Uma das mãos não podia apertar inteira, por isso usei-lhe apenas o polegar e o indicador. Primeiro tentei separar, mas não gostei da sensação.
Rodei as mãos em sentidos opostos, e consegui finalmente rasgar-te um pouco da pele. Finalmente conseguia conhecer-te o interior. Devo dizer-te que não era tão bonito quanto eu pensava. A carne revelou-se muito menos complexa do que uma alma humana imaginada.

Depois, dobrei-te o pescoço, como se fazia na primária com os lápis que partiamos só porque sim. Porque em criança é bom sentirmos que ganhamos força para partir qualquer coisa.

Mas há algo que te quero confessar:
Mesmo antes de ligar a pedir ajuda, abracei-te. Não foram os meus braços que me forçaram, nem a espuma. Apeteceu-me apenas abraçar-te, porque tu nunca me deixas abraçar-te.

Tudo o resto juro-te que foi sem querer.