Ele foi Usado como Novo
Mas afinal já não era novo,
Era usado.
Eventualmente avariou-se.
Sunday, December 2, 2007
Saturday, December 1, 2007
3. Amargo
A porta da sala está sempre fechada, como as restantes portas da casa. Lá dentro, todos os móveis estão cobertos por enormes lençóis brancos que os protegem do pó e dos olhares de ninguém. É também a única divisão que recebe a luz do Sol.
É no quarto que passa mais tempo: uma cama, uma pequena secretária, um baú escuro.
O resto da casa é um enorme corredor desigual, com portas de madeira num dos lados apenas.
É uma casa feita de arrecadações.
Nos raros dias em que recebe uma pessoa, tira os lençóis dos móveis e estes mostram-se no esplendor imaculado das coisas escondidas que ninguém usa. Respiram fundo e aguçam o ouvido, ansiando pelo fim do silêncio entre as paredes sempre caladas.
Entre as duas pessoas trocam-se palavras, histórias. Ele tem um fascínio pelas histórias dos outros, coloca os cotovelos na mesa, deixa os dedos das mãos abraçarem-se, apoia o queixo nos polegares e fica assim a ouvir.
A um jantar segue-se outro, e outro. As histórias começam a repetir-se até o seu silêncio se tornar pesado, contagiante, inevitável para o convidado.
O dia chega em que os móveis são novamente cobertos com o lençol branco e começam a sussurrar todas as histórias que ouviram para delas não se esquecerem durante o silêncio. Nunca choram quando sussurrar não resulta.
Às vezes ele interroga-se sobre o seu enorme corredor. Constrói-o na sua semi-consciência, talvez com os olhos brilhantes, ou revirados ou simplesmente fechados. Sempre no dia seguinte ao último jantar a dois. Dois metros e uma porta de cada vez.
De tempos em tempos, abre uma porta. Encontra uma pessoa com várias caras mas sempre um rosto inexpressivo, indiferente. É um corpo de pé, de olhos fixos na porta. Ambos trocam sorrisos e recordam os jantares que partilharam.
É ele que fala, quem ouve sorrí e deixa os dedos das mãos abraçarem-se.
É no quarto que passa mais tempo: uma cama, uma pequena secretária, um baú escuro.
O resto da casa é um enorme corredor desigual, com portas de madeira num dos lados apenas.
É uma casa feita de arrecadações.
Nos raros dias em que recebe uma pessoa, tira os lençóis dos móveis e estes mostram-se no esplendor imaculado das coisas escondidas que ninguém usa. Respiram fundo e aguçam o ouvido, ansiando pelo fim do silêncio entre as paredes sempre caladas.
Entre as duas pessoas trocam-se palavras, histórias. Ele tem um fascínio pelas histórias dos outros, coloca os cotovelos na mesa, deixa os dedos das mãos abraçarem-se, apoia o queixo nos polegares e fica assim a ouvir.
A um jantar segue-se outro, e outro. As histórias começam a repetir-se até o seu silêncio se tornar pesado, contagiante, inevitável para o convidado.
O dia chega em que os móveis são novamente cobertos com o lençol branco e começam a sussurrar todas as histórias que ouviram para delas não se esquecerem durante o silêncio. Nunca choram quando sussurrar não resulta.
Às vezes ele interroga-se sobre o seu enorme corredor. Constrói-o na sua semi-consciência, talvez com os olhos brilhantes, ou revirados ou simplesmente fechados. Sempre no dia seguinte ao último jantar a dois. Dois metros e uma porta de cada vez.
De tempos em tempos, abre uma porta. Encontra uma pessoa com várias caras mas sempre um rosto inexpressivo, indiferente. É um corpo de pé, de olhos fixos na porta. Ambos trocam sorrisos e recordam os jantares que partilharam.
É ele que fala, quem ouve sorrí e deixa os dedos das mãos abraçarem-se.
Tuesday, November 27, 2007
A borboleta bíblica.
Judas não se enforcou numa figueira por arrependimento ou tristeza...
Judas enforcou-se pois sonhava reencarnar num bonito figo.
Judas enforcou-se pois sonhava reencarnar num bonito figo.
Wednesday, November 21, 2007
Raiva
Claro que me lembro.
Sentia-me um bocado indisposto nesse dia: tonturas, frases soltas, silêncios enormes.
Calhou ser à tua frente que a coisa atingiu o auge.
Disseste-me uma banalidade qualquer, daquelas às quais eu normalmente encolho os ombros e respondo com um desprezo ácido que à primeira vista parece uma ignorância desleixada, ou pura e simplesmente a denúncia de uma personalidade passiva e pouco dada a tomadas de posição.
Por mim teria sido essa a resposta que levarias.
Mal abri a boca para soltar a costumeira exclamação insipida ou o murmúrio de solidariedade de quem realmente não se quer comprometer, senti algo diferente em mim.
Algo me trepava e corroía as entranhas, uma qualquer coisa sem sabor.
A espuma saiu-me da boca em jorros espessos. Por um segundo achei que bastaria um lencinho qualquer, mas desisti logo da ideia. Longe de me preencher apenas a boca e o queixo, escorreu e alastrou-se até aos braços.
Senti-a penetrar-me nos membros através da pele, da carne, e agarrar-me os ossos. Nesse momento a torrente parou, e lembro-me que o último bocado tinha um travo a livros velhos daqueles que se guardam, esquecem e se ignoram nas prateleiras durante muitos anos.
Não me lembro que cara fizeste quando os meus braços se mexeram sem eu os mandar. Apesar de não a ver, sei que eu não fiz cara nenhuma.
Agarrei-te o pescoço e comecei a apertar. Não te li os olhos, não te senti debateres-te de pânico, não te ouvi um grito sequer. Talvez um vago gemido qualquer de piedade.
Ou então sou só eu a romantizar a coisa.
Senti o teu pescoço emagrecer entre as palmas das minhas mãos. Os meus dedos riam um riso que eu nunca antes lhes tinha ouvido.
Vi-te ficar de todas as côres e aí sim, fiquei pasmado, porque não sabia que uma cara humana podia passar por tantas côres. Vi que os teus olhos tentavam sair da tua cara, como os ratos fogem de uma mina antes de um terramoto, ou pessoas saltam de um prédio condenado.
Os meus dedos ouviram o som de algo a partir-se entre eles. A tua boca também emitiu qualquer coisa, mas não consigo definir o que foi ao certo.
Inerte o teu pescoço fica mais pesado.
Rodei a mão direita, até ficar lado a lado com a esquerda.
Voltei a apertar. Uma das mãos não podia apertar inteira, por isso usei-lhe apenas o polegar e o indicador. Primeiro tentei separar, mas não gostei da sensação.
Rodei as mãos em sentidos opostos, e consegui finalmente rasgar-te um pouco da pele. Finalmente conseguia conhecer-te o interior. Devo dizer-te que não era tão bonito quanto eu pensava. A carne revelou-se muito menos complexa do que uma alma humana imaginada.
Depois, dobrei-te o pescoço, como se fazia na primária com os lápis que partiamos só porque sim. Porque em criança é bom sentirmos que ganhamos força para partir qualquer coisa.
Mas há algo que te quero confessar:
Mesmo antes de ligar a pedir ajuda, abracei-te. Não foram os meus braços que me forçaram, nem a espuma. Apeteceu-me apenas abraçar-te, porque tu nunca me deixas abraçar-te.
Tudo o resto juro-te que foi sem querer.
Sentia-me um bocado indisposto nesse dia: tonturas, frases soltas, silêncios enormes.
Calhou ser à tua frente que a coisa atingiu o auge.
Disseste-me uma banalidade qualquer, daquelas às quais eu normalmente encolho os ombros e respondo com um desprezo ácido que à primeira vista parece uma ignorância desleixada, ou pura e simplesmente a denúncia de uma personalidade passiva e pouco dada a tomadas de posição.
Por mim teria sido essa a resposta que levarias.
Mal abri a boca para soltar a costumeira exclamação insipida ou o murmúrio de solidariedade de quem realmente não se quer comprometer, senti algo diferente em mim.
Algo me trepava e corroía as entranhas, uma qualquer coisa sem sabor.
A espuma saiu-me da boca em jorros espessos. Por um segundo achei que bastaria um lencinho qualquer, mas desisti logo da ideia. Longe de me preencher apenas a boca e o queixo, escorreu e alastrou-se até aos braços.
Senti-a penetrar-me nos membros através da pele, da carne, e agarrar-me os ossos. Nesse momento a torrente parou, e lembro-me que o último bocado tinha um travo a livros velhos daqueles que se guardam, esquecem e se ignoram nas prateleiras durante muitos anos.
Não me lembro que cara fizeste quando os meus braços se mexeram sem eu os mandar. Apesar de não a ver, sei que eu não fiz cara nenhuma.
Agarrei-te o pescoço e comecei a apertar. Não te li os olhos, não te senti debateres-te de pânico, não te ouvi um grito sequer. Talvez um vago gemido qualquer de piedade.
Ou então sou só eu a romantizar a coisa.
Senti o teu pescoço emagrecer entre as palmas das minhas mãos. Os meus dedos riam um riso que eu nunca antes lhes tinha ouvido.
Vi-te ficar de todas as côres e aí sim, fiquei pasmado, porque não sabia que uma cara humana podia passar por tantas côres. Vi que os teus olhos tentavam sair da tua cara, como os ratos fogem de uma mina antes de um terramoto, ou pessoas saltam de um prédio condenado.
Os meus dedos ouviram o som de algo a partir-se entre eles. A tua boca também emitiu qualquer coisa, mas não consigo definir o que foi ao certo.
Inerte o teu pescoço fica mais pesado.
Rodei a mão direita, até ficar lado a lado com a esquerda.
Voltei a apertar. Uma das mãos não podia apertar inteira, por isso usei-lhe apenas o polegar e o indicador. Primeiro tentei separar, mas não gostei da sensação.
Rodei as mãos em sentidos opostos, e consegui finalmente rasgar-te um pouco da pele. Finalmente conseguia conhecer-te o interior. Devo dizer-te que não era tão bonito quanto eu pensava. A carne revelou-se muito menos complexa do que uma alma humana imaginada.
Depois, dobrei-te o pescoço, como se fazia na primária com os lápis que partiamos só porque sim. Porque em criança é bom sentirmos que ganhamos força para partir qualquer coisa.
Mas há algo que te quero confessar:
Mesmo antes de ligar a pedir ajuda, abracei-te. Não foram os meus braços que me forçaram, nem a espuma. Apeteceu-me apenas abraçar-te, porque tu nunca me deixas abraçar-te.
Tudo o resto juro-te que foi sem querer.
Tuesday, November 20, 2007
Cheiro a chuva
"Bomba! - gritou uma voz de chuva.
Então, num único movimento, todas as folhas se atiraram para o chão.
__________________________________________________________
A senhora entrou quieta no quarto onde já se encontrava.
Preparou-se para dormir, mas não se deitou. Uma senhora nunca se deita.
Ficou de pé, porque é uma senhora.
Devagar, debaixo dos seus lençóis cinzentos de Inverno, adormeceu.
As árvores também hibernam.
Então, num único movimento, todas as folhas se atiraram para o chão.
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A senhora entrou quieta no quarto onde já se encontrava.
Preparou-se para dormir, mas não se deitou. Uma senhora nunca se deita.
Ficou de pé, porque é uma senhora.
Devagar, debaixo dos seus lençóis cinzentos de Inverno, adormeceu.
As árvores também hibernam.
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