Wednesday, August 1, 2007

O fato.


"...foi então que decidi vestir o meu melhor fato. Aproximei-me do armário. Lá estava ele, por enquanto ainda a cheirar mais a naftalina do que a traças. O ar sério que guardo sempre escondido, que visto com o mesmo desconforto com que uso uma gravata num jantar formal."

Sabão


Wednesday, July 25, 2007

Desafio à lógica instituida.

Ocorreu-me:

Duas pessoas chegam a uma tasca onde se fazem meias-doses. Cada uma delas pede uma dose de febras.
- Lamento, mas já só temos uma de febras - diz o empregado, encolhendo os ombros.
Um dos clientes sorri:
- Faça assim: se dividir a dose ao meio, terá duas meias. Nós também não estamos com muita fome...
- Os senhores desculpem... - começa o patrão, preparando-se para uma afirmação fantástica - mas duas meias não são uma.


Este pequeno relato prova duas coisas:
- Que se pode escrever um conto baseado nas palavras "febras" e "tasca".
- Que, perante a veracidade da afirmação do patrão, as leis da Física deveriam ser revistas à luz da típica tasca lisboeta.




Tuesday, July 24, 2007

Eu quero ser redactor de destacáveis!

Há dias, cruzei-me com uma "oferta" na assinatura de uma revista semanal séria. Nas páginas centrais, onde outras publicações colocam fotografias discutiveis, aquela mostrou-se uma adepta do clássico ao não prescindir de um pequeno rectângulo de cartão.
Com uma letra diminuta, o cartão versava sobre o Mundo maravilhoso ao qual acediam todos aqueles que, num momento de brilhantismo, assinavam a dita revista.

Há sempre algo que os meus olhos buscam nestes momentos: as ofertas.
A "Visão" ofereceu durante muito tempo, com a sua assinatura, uma agenda de bolso, tipo calculadora-com-mais-botões. Eu, que nem adolescente era, achava aquilo o máximo.

Um dia, não sei porquê, apareceu-me uma coisa dessas lá em casa. Sem pilha (ela) e sem vida pessoal (eu), o objecto caiu primeiro em desuso e depois em desgraça até ao esquecimento.

Excitante é o texto que oficializa o momento da assinatura:

"SIM, desejo receber em minha casa a assinatura da revista X, válida para doze meses. Não enviarei todo o dinheiro agora, porque tenho a possibilidade de pagar em em suaves prestações. Receberei também a colecção "Civilização Egipcia" e como oferta, o meu busto de Tutankamon, em verdadeiro plástico Chinês."

Fora o plástico chinês, tudo o resto está próximo da realidade. Aliás, este é um texto que pouco varia ao longo dos anos, com as escassas alterações a serem devidas ao "stock limitado" da dita "oferta".

O hipnotismo destes textos é incrivel. Em vez de um "Sim" como resposta à pergunta "Deseja assinar a revista?", estes génios põem toda uma frase (enorme) de louvor à publicação e seus apêndices.

Mais adequada seria talvez:

"SIM, desejo assinar a vossa revista. Como não tenho outro remédio, enviem-me também a merda da colecção sem qualquer rigor cientifico que vocês oferecem com essa porra. Aproveitarei a colecção para encher as prateleiras vazias da minha sala e assim ficar com uma casa tão pedante quanto eu. Mas bom mesmo seria se enfiassem a "reliquia" por onde o Sol não brilha."

Talvez por isso não seja eu a escrevê-los. Isso caberá possivelmente a um velho de barba grisalha, mais maduro e ciente do seu poder de colocar palavras na boca dos outros. Para ele bastaria:

"SIM, desejo adorar a quem escreveu este texto. Não enviarei dinheiro agora, apenas o meu amor servil de discipulo."

Digam-me que isto é uma montagem...
Quem é que me pôs à frente do blogue a estas horas?

Friday, July 20, 2007

10 razões para visitar o Aquário Vasco da Gama em vez do Oceanário.

1 - Um tem uma lula gigante; o outro tem uma foca chamada Eusébio.

2 - Só fui a um deles quando era criança.

3 - Ambos estão à beira-Tejo, mas enquanto o Oceanário pisca o olho ao Trancão, o Aquário tem o glamour da Ribeira da Cruz Quebrada.

4 - Qual deles tem mais tascas ao lado? A resposta é só uma.

5 - Os sites de apresentação:




Porque um querubim com os dentes tortos derrete muito mais corações do que um choco.

6 - A própria gestão da área circundante: no Dafundo, Vasco da Gama é um Aquário; no Parque das Nações é um Centro Comercial.

7 - Tudo muito bonito, natureza e tal. Mas em qual deles é que se pode dar de comer aos peixinhos da entrada?

8 - As siglas: AVG é o nome de um Antivirus de origem portuguesa, útil ferramenta para a protecção do sistema informático, com o bónus de ser de producção nacional; OLx (Oceanário de Lisboa) significa também Online Exchange, o site onde foi colocado para venda o bebé de Almargem do Bispo.

9 - O Oceanário tem o "Clube do Oceanário"; o Aquário tem um "Clube de Amigos".

10 - A força da marca e o eficiente Custo por Mil Contactos da sua comunicação: um tem de avançar com enormes projectos de parceria com canais estrangeiros, alienar activos (soltar Mantas Gigantes no Oceano); o outro é referido todos os dias na rádio, por alturas da hora de ponta (sentido Lisboa - Cascais).

Monday, June 25, 2007

3+1 = (4/2)^2

A soma do primeiro número primo com o primeiro número impar é igual à metade do resultado elevada à potência dele mesmo dividida pelo primeiro número par inteiro superior a zero.

Tuesday, June 5, 2007

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Todos os dias, quando volto de qualquer sítio onde vá mais por ter do que por querer, volto pela auto-estrada. Antes era diferente, deixava-me ir tranquilamente pela marginal, ou talvez não tão tranquilamente, mas marginal sempre. Por motivo nenhum, simplesmente era assim.

De há uns meses para cá que sinto pressa, e na pressa meto-me no deitado bicho cinzento que não serpenteia. Disse por pressa, mas acho que essa fase já passou, e está agora mais no automatismo. Quando volto pelo mar é mau sinal, ou simplesmente sinal de que algo em mim precisa de ver mais do que rails e faróis de carros. O mar aparece-me assim nos espaços entre carros da hora-de-ponta, azul e da cor do Sol.

Ontem senti o apelo do mar. Não senti necessidade nenhuma da minha parte, mas apeteceu-me simplesmente completar o dia olhando para ele. Era tarde e não podia parar, apertar-lhe a mão ("andam a tirar-me tempo de ti"), dizer-lhe qualquer coisa e ele a mim.

Pus o The Field a tocar, com a música que me disse uma voz ser do Sol.

Lembrei-me e sorri da incongruência de ser eu e evoluir sendo eu: o miúdo que aos 10 anos adorava a praia, aos 14 fugia dela, e aos 15 não tirava a tshirt, apaixonou-se platónica e lentamente pelo mar aos 16 e aos 22 chorava de saudades dele e só dele... debruçava-me sempre do mesmo parapeito, onde se via o fim da cidade que era demasiado grande, e quase tentava adivinhar as ondas por detrás dos 650kms de montes à minha frente.

Todos os dias fazia isto, de todas as vezes que o sol se pôs eu impunha-me caminhar sozinho e vê-lo pousar no mar, como se não o pudesse fazer sem mim, como se eu o pudesse ver a ele.
O Sol foi o meu primeiro filho, que não adormecia sem que eu o visse deitar-se, sem que eu lhe apagasse a luz e lhe desse as boas noites.

Ontem o apelo do mar foi um bocado assim... chamou-me o lado paternal, queria ir deitar-se, queria ver-me. Não lhe expliquei que ao contrário do sol ele não dorme nunca. Há sempre costas para tocar, navios para levar a casa...

A hora de ponta tirou-me dele, afastou-me do abraço que lhe queria ter dado, da explicação que lhe era devida, porque um pai sussurra sempre uma resposta a um filho.

Olhei para ele até a última curva nos deixar de costas voltadas, cegos os dois um para o outro. Nesse momento ele adormeceu para mim e eu para ele.

Ele foi entregar os seus marinheiros, as suas tempestades, as chuvas que caem em ninguém.
Eu tive de resistir para não gritar "estou aqui!" ao dedo de azul que vejo entre prédios.

Sunday, May 27, 2007

Guardador de sapatos

Hoje, talvez porque me doessem os pés ou o sono que me dão os dias cinzentos, voltei a entrar na sapataria inexistente. Ao atravessar o limiar da porta, veio a senhora de sempre avisar-me que "se precisar de ajuda é só chamar".

Agradeci, e fui ver o que tinham exposto pela loja. Assim andei um bocado: vi sapatos para correr, para saltar, para ginástica, para ténis, para basket, para andar. Não, não era mesmo nada daquilo.

Chamei a senhora, ao que ela acudiu imediatamente com um sorridente "em que posso ajudar?"

Expliquei-lhe que achava todos aqueles sapatos muito bonitos, que a loja estava muito bem, mas que não era nada daquilo que eu procurava. Eu já tinha sapatos para tudo aquilo, e fora os guardados para os dias de sorrisos educadamente medidos e os de casamento, um par bastava-me. Com um total de três pares tinha conseguido fazer a festa nos últimos tempos.

Ela olhou-me com um ar meio expectante, calculei eu que por não saber então que me faltava.

Expliquei-lhe que andava à procura de mais sapatos para guardar. Que há muito que não guardava nenhuns e andava a fazer-me falta, não por qualquer situação em particular, mas pela sensação de vazio que sentia quando atravessava o sitio onde normalmente os guardo.

Ela voltou a pôr o seu ar profissional e guiou-me até uma outra sala.

Escolhi o par que mais me agradava. Outros se lhe seguirão.

Tuesday, May 8, 2007

Directamente da vida intima.

Nada de grandes verdades que alteram o movimento de rotação do mundo e derretem os pólos só com palavras.
Muito menos um daqueles enormes pensamentos que procuram alterar a forma de ver o mundo de todos aqueles que os lêem. Nada disso.

Só um pequeno desabafo:
Hoje ligaram-me de manhã. Uma entrevista, para um emprego. A minha primeira entrevista para um meu possivel primeiro emprego. Isto significa que finalmente alguém leu o Curriculum que resume as coisas que fiz pontecialmente interessantes para o público em geral. Esta pessoa não queria saber se eu subia às árvores em miúdo, se eu já andei de skate e se sim, quantas quedas dei.

Esta pessoa queria saber se daquela folha saltava algo que dissesse:
"Se investires dinheiro em mim, dar-te-ei mais a ganhar."

(Já cheira a grande verdade, a enorme pensamento.)
Só quero dizer isto:

Fica confirmado, a partir de hoje, que para além de bom em carne e osso, também sou bom no papel, mesmo que não tenha fotografia.

E para mim, isso chega e sobra para me deixar realizado a uma segunda-feira.

Thursday, April 26, 2007

Um retrato.

As ruas são o seu principal passatempo. Passeia-se por elas e observa a toda a sua volta. Sempre viveu na cidade, e se pensou por um momento na possibilidade de ir viver onde se vive o mar, ou o campo ou a serra, passou-lhe o pensamento num momento também.

Acha que a humanidade é a prova viva da existência de Deus, pois ambos são exactamente a mesma coisa. O Homem criou monstros que verga ao seu poder de Pai e Criador, habita neles, voa neles.

Gosta de prédios. Nos seus passeios pelas ruas observa-os, fala com eles, segreda-lhes ao ouvido que eles não têm. Diz-lhes que os ama, que os quer, que são eles que fazem a cidade ser assim deliciosamente castradora, no seu abraço de que ele não consegue fugir.

Encantam-no sobretudo os prédios que se escondem por detrás das estruturas metálicas. Os andaimes, expressão que ele odeia por ser simplista, suja. Secretamente chama-lhe roupas.

À noite, quando os carros se reduzem a massas rápidas e sussurrantes que passam sem olhar, ele pode ficar a sós com os edificios que lhe prenderam o olhar e lhe roubaram os suspiros durante o dia.

Escolhe os que têm estruturas exteriores e sobe-as. Consegue fazê-lo com o silêncio de quem ama em segredo durante a noite. Lá no alto sente-se seguro nos braços dos gigantes e descansa como não pode durante o dia. Volta a repetir as palavras que disse à luz do Sol e sente no vento frio das ruas iluminadas por candeeiros dispersos o sorriso do seu amado.

Uma mulher, um homem, são objectos demasiado pequenos para poderem ser objectos de amor. À grandeza do Amor, ele celebra-a assim, à frente da janela, à frente do vidro que o afastaria do Mundo.

Assim, escondido do lado onde cai a sombra durante o dia, respira fundo e sente-se feliz nos braços do monstro de cimento, que sem pernas não pode fugir.

Este grito não é de guerra (esboço e súmula)

Esboço:

"Andam a encher-me os ouvidos de ti. Dizem-me que fizeste o mesmo que os outros. Não sei, talvez te guarde um "também tu" como o personagem antes de morrer.
Há voltas ao Mundo nos pés e nas mãos que são um autêntico desperdicio. Fazem lembrar o Shoko Azahara (que agora notei que tem um nome que podia ser uma marca de chocolates), acho que era assim o nome dele, que era gordo, cabeludo, e barbudo e dizia que em meditação levitava até à Lua. No entanto nunca saía da cela da prisão, a ela confinado por ter morto dezenas de pessoas com gás.
Mesmo pessoas sem poderes meditativos fazem voltas ao mundo e voltam iguais, sem se terem movido. E continuam sem compreender a essência de uma conversa entre dois desconhecidos.

Ver tudo do Mundo inteiro e voltar sem um sorriso para um estranho não é de gente humana, mas sim do bicho-Homem. Essas pessoas são as mesmas que vêem nas prisões um depósito de massa que convem esquecer. Não se pode dar calor a quem falha, a quem vai voltar a falhar? Não se pode ter um gesto de pessoa?
Uma temporada no sofá é um analgésico poderoso e, a meu ver, insuficientemente receitado.

Mas e tu?
E se me desiludires? Se me tiveres mentido assim, rido de mim no silêncio dos teus pensamentos, na lingua que é só tua, como eu tenho a minha, que só o que me anima compreende?
Será então tão minha a culpa quanto tua, terei esbanjado o sorriso guardado em ti.
Mas nada diz que só guardo um.

Súmula:

No meio disto tudo, talvez ele tenha razão, afinal.
Se calhar deviamos ser todos perfeitos.
Ao fim de 10 anos o imperfeito seria exótico. 30 anos depois seria finalmente belo."

Sabão.